March 2003

Mar282003

O poder do perdão.

Se você for paciente em um momento de raiva, irá escapar de cem anos de arrependimento. (Provérbio Chinês)

Em 1974, voltando da escola para casa no último dia antes das férias de Natal, eu pensava animadamente sobre o feriado vindouro, como só os meninos de dez anos conseguem sonhar. A algumas portas de distância de minha casa em Coral Gables, Flórida, um homem se aproximou de mim e perguntou se eu poderia ajudá-lo com a decoração de uma festa que ele estava dando para meu pai. Achando que era amigo de meu pai, conconrdei em ir com ele.

O que eu não sabia era que este homem tinha resentimentos contra a minha família. Trabalhara como enfermeiro para um parente idoso, mas fora despedido por causa da bebida.

Após eu ter concordado em acompanhá-lo, ele dirigiu seu trailer até uma área isolada ao norte de Miami, onde parou no acostamento da estrada e me golpeou várias vezes no peito com um furador de gelo. Então dirigiu para oeste, até Flórida Everglades, levou-me até o meio dos arbustos, deu um tiro em minha cabeça e me deixou lá para morrer.

Felizmente a bala havia passado por trás de meus olhos e saído pela minha têmpora esquerda sem causar nenhum dano cerebral. Quando recobrei a consciência, seis dias depois, não tinha noção de que havia sido atingido por um tiro. Fiquei sentado no acostamento e fui encontrado por um homem que parou para me ajudar.

Duas semanas depois descrevi a pessoa que me atacara para o desenhista da polícia e meu tio reconheceu o retrato resultante como o homem que me atacara. Meu agressor foi preso, junto com outros suspeitos. Entretanto, o trauma e o estresse haviam cobrado seu preço e não pude identificá-lo. Infelizmente, a polícia não conseguiu recolher nenhuma prova física que o ligasse ao crime. Portanto, ele nunca foi acusado.

O ataque me deixou cego do olho esquerdo, mas não causou nenhum outro dano e, com o amor e o apoio de minha família e amigos, voltei para a escola e dei continuidade à minha vida.

Durante os três anos seguintes, vivi com uma extrema ansiedade. A maioria das noites eu acordava assustado, imaginando que havia escutado alguém entrando pela porta dos fundos e acabava dormindo no pé da cama de meus pais.

Então, quando eu estava com treze anos, tudo isso mudou. Uma noite, durante um estudo da Bíblia com o grupo jovem da igreja, percebi que a providência e o amor de Deus, tendo miraculosamente me mantido vivo, eram a base para a segurança de minha vida. Em Suas mãos eu podia viver sem medo ou rancor. E então eu o fiz. Terminei os estudos, recebendo o diploma de mestrado em Divindade. Casei-me com minha maravilhosa esposa, Leslie. Temos duas filhinhas maravilhosas, Amanda e Melodee.

Em setembro de 1996, o major Charles Scherer, do Departamento de Polícia de Coral Gables, que trabalhara na investigação original de meu caso, telefonou-me para me contar que o agressor, hoje com setenta e sete anos de idade, finalmente confessara. Cego por causa do glaucoma, com a saúde abalada, sem família ou amigos, ele estava em um asilo no norte de Miami Beach. Fui visitá-lo.

A primeira vez em que fui visitá-lo ele se desculpou pelo que havia feito a mim e eu lhe disse que o havia perdoado. Visitei-o muitas vezes depois disso, apresentando-o à minha esposa e filhas, oferecendo-lhe esperança e uma certa sensação de família nos dias anteriores à sua morte. Ele sempre ficava feliz quando eu aparecia. Acredito que nossa amizade tenha diminuído sua solidão e era um grande alívio para ele, após vinte e dois anos de arrependimento.

Sei que o mundo pode me ver como a vítima de uma horrível tragédia, mas eu me considero a “vítima” de muitos milagres. O fato de eu estar vivo e não ter nenhuma deficiência mental desafia as probabilidades. Tenho uma esposa amorosa e uma família linda. Recebi tantas dádivas quanto qualquer outra pessoa- e amplas oportunidades. Fui abeçoado de várias maneiras.

E enquanto muitas pessoas não conseguem entender como pude perdoá-lo, do meu ponto de vista eu não poderia deixar de fazê-lo. Se eu tivesse escolhido odiá-lo todos esses anos, ou passar a vida procurando vingança, então eu não seria o homem que sou hoje – o homem que minha mulher e filhas amam.

Chris Carrier.

Mar262003

Simplesmente linda…

Essa estória de hoje fez-me lembrar da minha avó, ser tão querido que mesmo não mais presente materialmente sei que está ao meu lado em cada momento de minha humilde vida…

Ei-la:

Linda.

Minha avó e eu compartilhamos um amor mútuo desde o dia em que nasci.

Vim ao mundo com a cabeça amassada e os traços deformados devido ao parto difícil vivido por minha mãe. Dois meses depois estava tudo no lugar, mas, naquele momento, parentes e amigos faziam careta diante do bebê desfigurado que eu era. Todos comentavam que eu me parecia muito com um jogador de futebol americano espancado. Mas não, não para ela. Nana me achava linda. Seus olhos brilhavam, cheios de alegria e felicidade, diante do bebê horroroso que segurava nos braços. Sua primeira netinha. “Linda”, ela disse.

Antes das provas finais, no meu penúltimo ano do segundo grau, ela morreu.

Sete anos antes, os médicos tinham diagnosticado que ela era portadora do mal de Alzheimer. A família toda tornou-se especialista no assunto à medida que a perdíamos, pouco a pouco.

Ela falava em fragmentos. Com o passar dos anos, o número de palavras foi ficando cada vez menor até, finalmente, ela não dizer mais nada. Tínhamos sorte quando extraíamos uma palavrinha ocasional dela. Foi então que compreendemos que sua vida estava chegando ao fim.

Mais ou menos uma semana antes de minha avó morrer, seu corpo perdeu todas as funções vitais e os médicos decidiram removê-la para uma clínica de doentes terminais. Um local onde aqueles que entram jamais saem vivos.

Eu disse a meus pais que queria vê-la. Eu tinha de vê-la. Minha vontade superava o medo paralisante que sentia.

Minha mãe me levou à clínica dois dias depois. Meu avô e duas de minhas tias também estavam lá, mas ficaram no corredor, enquanto eu entrava no quarto de Nana. Ela estava sentada numa poltrona enorme e confortável, ao lado de sua cama, com o corpo encurvado, os olhos fechados e a boca aberta, mole. A morfina a mantinha adormecida. Meus olhos percorreram o quarto, captando janelas, as flores, a aparência de Nana. Eu lutava para absorver aquilo tudo, consciente de que aquela seria a última vez que a veria viva.

Lentamente, sentei-me à sua frente. Tomei a sua mão esquerda e a segurei, afastando uma mecha de cabelos brancos de seu rosto. Fiquei ali diante dela, sentada, sem me mover, incapaz de sentir coisa alguma. Abri a boca para falar, mas nada saía. Eu não conseguia controlar a minha tristeza diante de sua aparência lamentável, sentada ali, completamente indefesa.

Foi então que aconteceu. Sua mãozinha foi se fechando em torno da minha, apertando mais e mais. Ela emitiu o que pareceu ser um pequeno gemido. Parecia chorar de dor. Então, ela falou.

“Jessica.”

Assim, claro como a luz do dia. Meu nome. O meu. Dos quatro filhos, dois genros, uma nora e seis netos, ela sabia que era eu.

Naquele momento, tive a impressão de estarem exibindo um filme com cenas de nosa família dentro de minha cabeça. Vi Nana no meu batizado. Nos meus quatorze recitais de dança. Eu a vi sapateando no chão de nossa cozinha. Eu a vi apontando para as próprias bochechas enrugadas dizendo que eu herdara dela minhas imensas covinhas. Eu a vi brincando com os netos, enquanto os outros adultos faziam a ceia de ação de graças, e sentada ao meu lado na sala de nossa casa, no Natal, admirando a nossa árvore, decorada com enfeites luminosos.

Então olhei para ela e, ao ver como havia ficado, chorei.

Sabia que ela não mais assistiria ao meu último recital de dança; nem voltaria a torcer comigo pelo time de futebol. Nunca mais se sentaria ao meu lado para admirar a árvore de Natal. Sabia que não me veria sair, toda arrumada, para o baile de formatura, e que não estaria presente em meu casamento, nem quando meu primeiro filho nascesse. E as lágrimas corriam, continuamente, pela minha face.

Mas, acima de tudo, eu chorava porque finalmente compreendia como ela havia se sentido no dia em que nasci. Ela olhara através de minha aparência, enxergara lá dentro e vira uma vida.

Lentamente, tirei a sua mão de dentro da minha e enxuguei as lágrimas que molhavam meu rosto. Fiquei de pé, inclinei o corpo para a frente, beijei-a e disse:

“Você está linda.”

E com uma última olhada, me virei e deixei a clínica.

Jessica Gardner

Fico tão comovido que chego a chorar… não de tristeza, mas por toda a maravilha do amor que tínhamos um pelo outro.

Que saudades tenho de minha avó…

Mar242003

Deixando escapar uma grande garota.

Você nunca perde amando. Sempre perde deixando de amar. (Barbara de Angelis)

Nunca vou esquecer do dia em que vi pela primeira vez a garota dos meus sonhos. O nome dela era Susie Summers. Seus olos estavam sempre brilhando, cheios de entusiasmo, e seu lindo sorriso fazia as pessoas que o recebiam (especialmente os rapazes) se sentirem muito, muito especiais.

Apesar de sua beleza incrível, é do seu jeito carinhoso que eu sempre vou me lembrar. Ela realmente se importava com os outros e era uma ouvinte muito atenta. Seu senso de humor era capaz de tornar o dia mais bonito e suas palavras eram exatamente aquelas que você precisava ouvir. Susie não era só admirada, mas genuinamente respeitada tanto pelos meninos, como pelas meninas. Com tudo para ser metida, ela era extremamente modesta.

Nem é preciso dizer que susie era o sonho de qualquer cara. Especialmente o meu. Eu a levava até a sala de aula todo dia e até almocei sozinho com ela uma vez. Nesse dia eu me senti no topo do mundo.

Eu pensava: “Ah, se eu pudesse ter uma namorada como a Susie Summers, nunca mais olharia para outra mulher.” Mas eu disse a mim mesmo que uma menina assim tão maravilhosa provavelmente estava saindo com um cara muito melhor do que eu. Mesmo sendo o presidente da associação dos alunos, eu simplesmente sabia que não tinha nenhuma chance.

Então, na formatura, eu disse adeus à minha primeira grande paixão.

Um ano depois, encontrei a melhor amiga dela em um shopping e almoçamos juntos. Engasgado, perguntei a ela como estava a Susie.

-Bom, ela esqueceu você – foi a resposta.

-Do que você está falando? – perguntei.

- Você foi muito cruel, enrolando a Susie daquele jeito, sempre fazendo ela pensar que estava interessado. Lembra daquela vez em que você almoçou com ela? Susie ficou do lado do telefone o fim de semana inteiro. Tinha certeza de que você ia ligar convidando-a para sair.

Eu tinha tanto medo de ser rejeitado que nunca me arrisquei a dizer para ela o que sentia. E se eu tivesse convidado Susie para sair e ela tivesse dito não? Qual a pior coisa que poderia ter acontecido? Eu não teria saído com ela. Sabe de uma coisa? Eu não saí com ela de qualquer maneira. E o pior é que eu poderia ter saído.

Jack Schlatter

Lembre-se que a vida é um risco. É preferível arriscar ao fracasso a não fazê-lo e ver que o resultado seria favorável a sua pessoa. Veja o caso acima. O máximo que poderia ter acontecido era ela não ter saído com ele. Por esse medo, ele não se arriscou. O problema é que ela estava louca para sair com ele, mas ele não sabia… Portanto, não tenha medo. Siga seu coração. Boa sorte.

Mar212003

Caça e caçador

Revendo tempos passados…
um tempo em que nem Águia eu era…
de uma raposa tomava o nome…
e era de uma linda cor dourada…
corria pelos campos…
corria pelos chats… caçava almas…
caçava pessoas…
nada me detinha…
perseguia…
de minhas garras… não escapulia…
mas… eu não estava bem…
passado muito tempo…
acho graça… até um pouco de vergonha…
lá se foi aquele tempo do caçador…
as caças passaram…
ficaram apenas na história…
de uma época… que não retornará jamais…
essa águia que aqui está…
não caça…
não persegue…
não é um predador…
hoje…
sou o gato cansado…
uma raposa que se metamorfoseou…
em águia… águia real…
hoje restou o poeta…
o arquiteto…
o esteta…
sobrou um sonhador…
você que hoje me vê…
pode ficar tranqüila…
não sou águia perigosa…
apenas a minha pena…
é que nunca se cala…
sempre fala…
seja para alguém defender…
seja para escrever…
prosear…
poetar…
mandando um lindo recado para você…
pare… ouça essa melodia…
que na realidade…
não é um canto de saudade…
é um hino ao amor…
do meu…
do seu…
do nosso…

Águia

Mar182003

Tributo

(Tributo aos meus amigos virtuais)

Por uma tela, os conheci…
Aprendi a amar, a rir e a chorar.
Aprendi a acreditar, pois deles só posso “ver” os sentimentos.

Aprendi a gostar sem saber a cor, o credo, classe social ou algo mais
coisas típicas de nossa sociedade material.
Doei…um pouco de mim, um pouco de tempo
e até de trabalho também
Mas, recebi muito mais!

Recebi calor humano, carinho e amor de pessoas
que talvez, sem o computador, nem imaginasse existir.
Por força do hábito, os chamo de amigos virtuais.
Virtuais? Que nada!
São tão reais quanto eu…

Ah!…quem dera o mundo aprendesse essa lição, aprender a gostar sem julgar, sem buscar fatores externos ao amor e à compreensão.
Obrigado por vocês existirem!
Obrigado por serem simplesmente quem são!

a.d. 

Mar142003

Saber ouvir

O tempo, para mim, e sei que para tantos outros, é exíguo. Cada vez mais, fica difícil postar algo para vocês, queridos amigos, quem dirá visitá-los… Peço, pois, minhas sinceras desculpas pela ausência temporária; além, peço compreensão por tudo. Estejam certos que estou buscando um meio para ser mais presente na vida de vocês… Por enquanto, fiquem com mais um post, que é o que ainda dá um tempinho de fazer, mesmo que sem a mesma frequência de antes…

Eis mais um texto, pequeno, é certo, mas importantíssimo. Ei-lo:

Quando desconheceres um assunto, confessa a tua ignorância a seu respeito.

Não tens obrigação de saber tudo, de estar informado sobre todas as coisas.

Questão de apreço é a honestidade de quem reconhece os próprios limites. É mesmo que estejas inteirado da informação que alguém te dá, ouve-a com paciência. Terás ensejo de conferí-la com as notícias que já tens, enriquecendo mais o teu conhecimento ou corrigindo-o.

Uma pessoa que parece muito bem informada, às vezes tem somente um conhecimento superficial, aparentando mais do que sabe.

Quem sabe ouvir, lucra sempre.

obs: na rádio, estão ouvindo Norah Jones, “Don’t know why”, “Come away with me”… Curtam as músicas: são lindas…

Mar122003

Caminho do meio.

Reparaste que eu avanço
na exata proporção do teu recuo?
Se te mantivesses no caminho do meio
eu não precisaria avançar
e tampouco tu precisarias recuar…

Reparaste que eu encho a tua taça na mesma proporção
de que ela se me apresenta sempre vazia?
Se ela se mantivesse à meia borda,
por certo eu não a transbordaria…

Reparaste que eu falo demais
na exata medida em que tu falas de menos?
Se ao invés de silêncio retornasses as minhas falas,
na tua fala, o meu próprio silêncio se equilibraria …

Reparaste que todos os meus sins
se contrapõem a todos os teus nãos ?
Se houvesse alguns sins dentre os teus nãos,
os meus próprios sins
aprenderiam a dizer talvez e no talvez,
os nossos sins e nãos se reconciliariam…

Avança um pouco para que eu consiga recuar.
Transborda um tanto a minha taça para que eu possa esvaziar.
Rasga de leve o teu silêncio para que eu aprenda a me calar.
Articula algumas afirmações para que eu aprenda a me negar.
Fica da minha altura para que eu não tenha que esticar.
Equilibra assim os nossos pratos
para além da nossa guerra de egos.
…E só então, em plenitude e verdade,
eu poderei te amar…

Fátima Irene Pinto

Mar82003

Dia Internacional da Mulher

Ser mulher é jogar-se no mundo, correr para o fundo, gritar!!! Sempre tentando a voz esconder.
Ser mulher é dar o fruto mais doce para a boca mais amarga que quer apenas provar o gosto bom.

Ser mulher é tremer de desejo ao sentir uma carícia, ou um beijo.
Ser mulher é ter sempre um corpo ardente, esperando…quem sabe…o corpo ausente que veio se entregar.

Ser mulher é ser dura para enfrentar a dor, a miséria, a tristeza, sem nunca desacreditar.
Ser mulher é não perder a calma quando tudo falta, quando a vida parece ruir, explodir, cair, ferir.

Ser mulher é ter um prato quente esperando alguém que vem para jantar.
Ser mulher é perdoar o erro sem perdão, é fazer da vida uma canção para alguém cantar.

Ser mulher é jamais se desesperar, é ser mãe, companheira, fazer versos somente para agradar.
Ser mulher é as vezes dizer “não” com jeitinho, para não magoar.

É ter sonhos inacabados, sujar a mão, cuidar do machucado e abrir de fato o coração.
Ser mulher é colecionar papel de bala e escrever o nome do amante em todo lugar.

Ser mulher é perguntar como fazer o que ela já está cansada de saber.
Ser mulher é não pensar nele a todo instante, mas vê-lo em todo lugar.

Ser mulher é crer que tudo vai mudar. É usar um decote generoso somente prá provocar.
Ser mulher é sentir ciúmes de coisas que a ninguém pode importar.

Ser mulher é ser tudo, rosa e leão, fonte e tempestade, mar e vulcão.

Ser mulher é se armar e defender o homem amado. É recordar o passado.
Ser mulher é ter mãos de fada… é ser feliz… é ser “amada”…

T.Chris

A todas as mulheres do Mundo inteiro,
minha sincera Homenagem pelo

DIA INTERNACIONAL DA MULHER,

dia esse meramente simbólico,
haja vista todo dia ser dia da mulher,
deste ser deslumbrante, maravilhoso, estonteante…
Somente me resta dar os parabéns e
agradecer por simplesmente existirem…

Um grande beijo a todas vocês.

Mar62003

Aceita um palito?

A cortesia é parecida com a manga de um mágico: sempre guarda surpresas agradáveis. No mínimo, uma pomba da paz!

Um sorriso, um cumprimento cordial, um pedido de desculpas, a cessão da vez ou do lugar, um suave “por favor”, um envolvente “obrigado”, e tantos outros comportamentos qualificados como de etiqueta, são elementos que saem aos montes do ventre da cortesia.

A cortesia é sempre maravilhosa, mesmo quando só por interesse – oportunidade em que perde muito de seu encanto. Mas o pior é a sua ausência… Ih! É ruim.

Chegando ao restaurante, enquanto esperava que os pratos fossem servidos, o pai pega um paliteiro, tira um palito e dá-o a filha. Esta, espantada, reage:

- Pra que é que eu quero um palito?

- É um presente meu, filha. Aceite-o.

- Não… Obrigada!

Ato contínuo, deu-o ao filho que também ali estava, sendo por ele aceito com um sorridente “muito obrigado papai!¿.

Minutos depois, chegou o prato principal. Compondo-o, destacava-se uma vistosa azeitona verde.

Calmamente, o pai pede de volta o palito ao filho, espeta-o na azeitona, devolvendo-o em seguida, agora adornado por aquele delicioso petisco.

A filha logo reclama:

- E eu, não ganho uma azeitona, não?

- Não! – respondeu o pai com tranqüilidade – Quando lhe dei um palito de presente foi para que, chegando o prato principal, você fosse a primeira a se servir, tirando a azeitona de que tanto gosta. Como não aceitou o presente…

- Mas papai, se eu soubesse…

- É isso, filha, se você soubesse já teria aprendido que presentes dados têm valores visíveis e invisíveis, e só quem sabe recebê-los tem condições de perceber tudo isso… e desfrutá-los com proveito e sabedoria.

É comum pessoas se desculparem quando alguma coisa saiu errado e que, se tivesse tomado outro rumo, traria vantagens consideráveis. Alega-se que: “Eu não sabia que era assim… que era você… que era pra isso…”. O medo de ser traído é tão forte nos dias de hoje que vivemos sendo traídos por esse medo e não nos damos conta. Não estendemos a mão para uma pessoa com medo de que ela não retribua. Deixamos de cumprimentar alguém com um alô para não passarmos por metidos. Vivemos bancando as avestruzes quando nossa compleição está mais para girafa, ou seja: olhamos para os pés e para o chão com medo dos olhares alheios, e assim, perdemos de ver belos olhos e um céu sempre exuberante. Sorrimos pouco para não nos apontarem como pessoas de pouco siso e somos chatos por isso. Descartamos convites com medo da conta e depois ficamos magoados com quem aceitou e não precisou pagar nada. Somos insinceros com os amigos porque o assunto é delicado, e dessa forma damos cobertura a quem está agindo mal…

Pedir desculpas é uma regra básica da boa convivência, mas viver errando para se desculpar é um erro indesculpável. Pouco desculpável também é não fazer o bom e o certo por receio de ser mal-interpretado. Isso porque a cortesia não se curva à maldade, já que anda de mãos dadas com a bondade que, por sua vez, não é temerária.

Sejamos corteses e educados. Os primeiros e maiores lucros serão creditados, à vista, em nossa conta corrente de felicidade. Um mundo novo de sorrisos, afagos, carinhos, simpatia e amizade abundará por onde transitarmos. Nunca mais seremos indesejados. Deixaremos de ser pessoas chatas.

Assim, oferte cortesia, dê simpatia e doe-se em amizade, mas igualmente aceite e retribua a cortesia, a simpatia e a amizade que lhes são endereçadas. Faça isso com alegria e a alegria será abundante em todos os seus dias.

Concluindo, permita-me saber agora de sua reação: se alguém lhe oferecer um palito, você aceita? É bom que, antecipadamente, você pense sobre isso…

Mar52003

A mentira descoberta

O Dr. Arun Gandhi, neto de Mahatma Gandhi e fundador do Instituto M.K.Gandhi para a Vida Sem Violência, em sua palestra de 9 de junho, na Universidade de Porto Rico, compartilhou a seguinte história como exemplo da vida sem violência exemplificada por seus pais:

“Eu tinha 16 anos e estava vivendo com meus pais no instituto que meu avô havia fundado, a 18 milhas da cidade de Durban, na África do Sul, em meio a plantações de cana de açúcar.

Estávamos bem no interior do país e não tínhamos vizinhos. Assim, sempre nos entusiasmava, às duas irmãs e a mim, poder ir à cidade visitar amigos ou ir ao cinema.

Certo dia, meu pai me pediu que o levasse à cidade para assistir a uma conferência que duraria o dia inteiro, e eu me apressei de imediato diante da oportunidade.

Como iria à cidade, minha mãe deu-me uma lista de coisas do supermerc ado, as quais necessitava, e c omo iria passar todo o dia na cidade, meu pai me pediu que me encarregasse de algumas tarefas pendentes, como levar o carro à oficina.

Quando me despedi de meu pai, ele me disse: ‘Nós nos veremos neste local às 5 horas da tarde e retornaremos à casa juntos.’

Após, muito rapidamente, completar todas as tarefas, fui ao cinema mais próximo. Estava tão concentrado no filme, um filme duplo de John Wayne, que me esqueci do tempo. Eram 5:30 horas da tarde, quando me lembrei.

Corri à oficina, peguei o carro e corri até onde meu pai estava me esperando. Já eram quase 6 horas da tarde.

Ele me perguntou com ansiedade:

‘Por que chegaste tarde?’

Eu me sentia mal com o fato e não lhe podia dizer que estava assistindo um filme de John Wayne. Então, eu lhe disse que o carro não estava pronto e que tive que esperar… isto eu disse sem saber que meu pai já havia ligado para a oficina.

Quando ele se deu conta de que eu havia mentido, disse-me: ‘Algo não anda bem, na maneira pela qual te tenho educado, que não te tem proporcionado confiança em dizer-me a verdade.

Vou refletir sobre o que fiz de errado contigo. Vou caminhar as 18 milhas à casa e pensar sobre isto.’

Assim, vestido com seu traje e seus sapatos elegantes, começou a caminhar até a casa, por caminhos que nem estavam asfaltados nem iluminados. Não podia deixá-lo só. Assim, dirigi por 5 horas e meia atrás dele… vendo meu pai sofrer a agonia de uma mentira estúpida que eu havia dito.

Decidi, desde aquele momento, que nunca mais iria mentir.

Muitas vezes m e recordo desse episódio e penso.. Se ele me tivesse castigado do modo que castigamos nossos filhos… teria eu aprendido a lição?… Não acredito…

Se tivesse sofrido o castigo, continuaria fazendo o mesmo…

Mas, tal ação de não-violência foi tão forte que a tenho impressa na memória como se fosse ontem…

Este é o poder da vida sem violência.