November 2003

Nov302003

Se pudéssemos mandar um recado…

Rock Hudson 1985
Henfil 1988
Lauro Corona 1989
Cazuza 1990
Fred Mercury 1991
Claudia Magno 1994
Renato Russo 1996
Herbert de Souza (Betinho) 1997
Sandra Bréa 2000
E muitos outros…

Partimos, meio que de repente
totalmente desavisados
imaginando ter sido inutilmente.
Nem sequer tivemos tempo
de tentar mudar o que nos foi predestinado
mas se pudéssemos, hoje mandaríamos a vocês um recado.
Diríamos que estamos conformados
porque entendemos finalmente
que fomos uns dos escolhidos para sermos contaminados
para que no futuro uma porta se abrisse
tentando resgatar outros passados.
Também gostaríamos de dizer
que pioneiros tivemos que ser
para que a humanidade pudesse entender
o real significado do risco que estão a correr.
Hoje com quase tudo esclarecido
resta ao ser humano se empenhar em combater
todas as formas de vírus
que é possível um soro positivo desenvolver.
E não estamos falando só do HIV.
Vale lembrar que existe o vírus da tristeza
que o contamina quando seu próximo o discrimina
e também o vírus da desesperança
que baixa suas defesas
quando a sua volta existe a ignorância.
Que os homens consigam vencer
com a máxima responsabilidade
mas acima de tudo com dignidade
o vírus HIV.
E que cada um deles fique alerta
porque ontem ele penetrou em nós
mas um dia se não houver cautela
poderá penetrar em você.
Então que todos vivam, amem
mas saibam se precaver
e que as autoridades competentes
um trabalho digno continuem a desenvolver.
No mundo já foram registrados
quarenta e dois milhões de infectados.
Agora só depende de vocês
não serem vítimas do seu próprio descaso!

*

1 de dezembro – Dia Mundial da Luta Contra a AIDS

“Uma pesquisa realizada a pedido da BBC em 15 países revelou que 61% dos brasileiros entrevistados não acreditam que a Aids e o HIV possam provocar a morte. O Brasil foi o país que mostrou maior ignorância das conseqüências da Aids para o ser humano, de acordo com a pesquisa, apesar de terem morrido 8,4 mil brasileiros em conseqüência da Aids em 2001, segundo dados da Organização das Nações Unidas (ONU).”

Somente o Derrame Cerebral mata mais mulheres brasileiras do que a Aids. O resultado surpreendeu até mesmo os pesquisadores. O trabalho foi desenvolvido por professores da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (FSP-USP), em parceria com o Ministério da Saúde, a Organização Mundial da Saúde e o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

http://www.agenciaaids.com.br

Nov292003

Plante

“O tempo não é algo que possa voltar atrás. Portanto , plante seu jardim e decore sua alma, ao invés de esperar que alguém lhe traga flores.”

Shakeaspeare

Nov272003

O Barqueiro.

Em um largo rio, de difícil travessia, havia um barqueiro que atravessava as pessoas de um lado para o outro. Em uma das viagens, iam um advogado e uma professora.

Como quem gosta de falar muito, o advogado pergunta ao barqueiro:
- Companheiro, você entende de leis?
- Não – responde o barqueiro.

E o advogado compadecido:
- É pena, você perdeu metade da vida!

A professora muito social entra na conversa:
- Seu barqueiro, você sabe ler e escrever?
- Também não – responde o remador.
- Que pena! – condói-se a mestra – Você perdeu metade da vida!

Nisso chega uma onda bastante forte e vira o barco. O canoeiro preocupado pergunta:
- Vocês sabem nadar?
- Não! – responderam eles rapidamente.
- Então é uma pena – conclui o barqueiro – Vocês perderam toda a vida!

“Não há saber mais ou saber menos: há saberes diferentes”.
Paulo Freire

Pensem nisso e valorizem todas as pessoas com as quais tenham contato. Cada uma delas tem algo diferente para ensinar…

Bring me to life – Evanescence

Nov252003

Perfume & Poder

Eles andam cada vez mais regados de segundas intenções.

Houve um tempo em que se dizia, com ar de sabedoria, que “os melhores perfumes concentram-se nos menores frascos”. A frase, de tão repetida, passou a servir para qualquer coisa diminuta que contém o necessário para a felicidade, de amantes baixinhos a ilhotas paradisíacas. Hoje, diante do vidro voluptuoso que reproduz toda a abundância de Jennifer Lopez, dá para ver que as coisas estão mudando. Enquanto os vidrinhos de outrora sugeriam mistério, como se dentro deles coubesse um sem-número de promessas secretas, agora o que conta no frasco é o tamanho da ousadia.

Alexander McQueen, o genial estilista inglês que gosta de chocar a sociedade, acabou de lançar seu Kingdom feminino numa embalagem vermelha, explosiva, em formato de coração pulsante. O cheiro é intenso e lá bem no fundo evoca, com a devida sofisticação, aquele quê de corpo suado após alguma aeróbica erótica. Moças nuas, literalmente em pêlo, se enroscam na sua propaganda. A casa Yves Saint Laurent anda anunciando a que veio seu novo perfume M7, masculino, com um homem – e que homem! – em objetivo nu frontal nas fotos publicitárias, enquanto a Lacoste e a Davidoff, um pouco menos explícitas, usam belos pelados nos seus anúncios também. Os melhores perfumes trazem cada vez mais as segundas intenções escritas por extenso nas campanhas, nas embalagens e nos seus nomes de batismo.

Veja só: tem o Obsession, de Calvin Klein; o Animale, de Suzanne de Lyon; o Volcan d’Amour, de Diane von Furstenberg; o Pheromone (feromônio, em português), de Marilyn Miglin, que já apela para o lado hormonal do negócio, ou o recém-lançado Chance, de Chanel, que se apresenta, no comercial filmado em Veneza, como a derradeira oportunidade de arrebatar o sexo oposto. São muitos mais os nomes e cheiros que garantem prazeres loucos. Basta uma borrifada e lá vêm os chamados da natureza tocando trombetas através dos aromas. É fazer o próximo aspirar e já ter vontade de partir para a ignorância. Ou seja, é o que todo mundo procura num perfume, não importa o tamanho do frasco: o poder de sedução.

Numa olhadela pela história do perfume que, quer a maioria dos estudiosos, começou no Egito, por volta de 170 aC (outros garantem que foi na Babilônia), dá para ver que aromas e pecados sempre fizeram proezas juntos. Queimavam-se plantas para perfumar os templos da deusa do amor. A eterna prafrentex Cleópatra – quem mais? – já sabia que um bom cheiro deixaria Marco Antônio no ponto, e tratou de espalhar incensos no seu barco a fim de atrair o moço. Você sabia? Vem da queima de ervas aromáticas a palavra perfume, definida em latim como per (através de) e fumum (fumaça). E já que o pecado mora ao lado do sagrado, perfumes atravessaram a história como a oferta suprema de amor aos deuses. Em todas as religiões e culturas, divindades nunca deixaram de ser celebradas com aromas. “O que devemos dar a Deus? Perfumes, luz e canções, as expressões mais refinadas da nossa natureza”, já escreveu Honoré de Balzac.

Oferecer e aspirar o perfume também significa chegar mais perto de Deus. Yves Saint Laurent, esperto, juntou divindade ao seu perfume Opium na embalagem, reprodução estilizada de um inro, estojinho japonês usado para carregar incenso em templos. Acontece que, feito a música de Caetano, tudo é divino, tudo é maravilhoso… Roupas de alta-costura, carrões de cinema, jóias deslumbrantes – chegar perto dessas divindades terrenas custa um bocado, então eis o perfume pronto a nos oferecer, em gotas, uma espécie de vaga na terra dos seletos bem-sucedidos. Não cabe um vestido de Karl Lagerfeld no seu orçamento? Compre um perfuminho Chanel e sinta-se sexy e poderosa como se vestisse um modelo da grife. Ainda não deu para comprar aquela Ferrari? O cheirinho dela pode ser levado para a casa em 100 mililitros. E, na falta do colar de pérolas Tiffany’s, vale o refinamento do seu perfume.

Os perfumes também custam uma nota, mas nada que em três vezes no cartão não se resolva. Assim, as grifes mais mais do mundo sustentam seu luxo vendendo o sonho. O sujeito pelado ou o slogan esperto estão ali, convidando você a partilhar daquele mundo irresistível. “Eden. A fragrância proibida”; “Angel. Cuidado com os anjos…”; “Miss Dior. Definitivamente muito Dior” e outros mais e menos misteriosos, cafonas, divertidos. Todos vendem aquela coisa que ninguém sabe direito o que é, mas entende que é importante: a atitude. Ela varia, claro. No começo dos anos 90, quando era bacana ser andrógino, um perfume como CK One, unissex, vendeu feito água. Nos últimos tempos, depois da Aids e de outras tantas turbulências no mundo, homens e mulheres têm preferido perfumes muito definidos, cada um epara o seu lado. Depois de 11 de setembro, por exemplo, novos cheiros convidam à sexualidade dentro de casa, à introspecção, à serenidade. Alguns perfumes mais suaves estão ganhando terreno. Assim caminham a humanidade e o mercado. Aqueles clássicos eternos, como o Chanel n° 5, o Femme de Rochas, o Polo de Ralph Lauren e tantos outros, dos tempos em que os melhores vinham nos frascos menores – e isso porque eram tão fortes, sintéticos, que não podiam ser borrifados à beça – nunca saem de linha. Entre os campeões do mundo, estão o Angel, de Thierry Mugler, o Opium, de Saint Laurent, e o J’Adore, de Dior.

Mulheres, ainda as grandes consumidoras, não costumam ser fiéis às marcas. Cheiram conforme o humor do dia. As brasileiras gostam de ir na onda das calientes latinas, como Gabriela Sabatini – seu perfume é pole-position por aqui – e Jennifer Lopez, cujo sugestivo Glow está subindo no pódio dos mais vendidos. Volúpia, romance, mistérios – não importa o que o aroma prometa. Os melhores perfumes são de todos e de ninguém. Os que estão e estarão sempre no ar, espalhando por aí os desejos, os segredos e as lembranças de cada um de nós.

Cristina Ramalho

Nov242003

Dez mandamentos de como viver bem com os outros

I – Tenha controle de sua língua. Sempre diga menos do que pensa. Cultive uma voz baixa e suave. A maneira como se fala muitas vezes impressiona muito mais do que aquilo que se fala.

II – Pense antes de fazer uma promessa e depois não dê importância ao quanto lhe custa.

III – Nunca deixe passar uma oportunidade para dizer uma coisa meiga e animadora a uma pessoa ou a respeito dela.

IV – Tenha interesse nos outros, em suas ocupações, seu bem-estar, seus lares e famílias. Seja alegre com os que riem e lamente com os que choram. Deixe cada pessoa com quem encontra, sentir que você lhe dispensa importância e atenção.

V – Seja alegre. Conserve para cima os cantos da boca. Esconda as suas dores, deus desapontamentos e inquietações sob um sorriso. Ria de histórias boas e aprenda a contá-las.

VI – Conserve a mente aberta para todas as questões da discussão. Investigue, mas não argumente. É marca de ser superior… discordar e ainda conservar a amizade.

VII – Deixa as suas virtudes falarem por si mesmo e recuse a falar das faltas e fraquezas dos outros. Desencoraje murmúrios. Faça uma regra de falar coisas boas aos outros.

VIII – Tenha cuidado com os sentimentos dos outros. Gracejos e humor não valem a pena e freqüentemente magoam quando menos se espera.

IX – Não faça caso das observações más a seu respeito. Só viva de modo que ninguém acredite nelas. Nervosismo e indigestão são causas comuns para maledicência.

X – Não seja tão ansioso a respeito de seus direitos. Trabalhe, tenha paciência, conserve seu temperamento calmo, esqueça de si mesmo e receberá a sua recompensa.

M. Leandro

Nov222003

Do Amor…

“Do amor conheci todas as ausências, todas as tolerâncias e todas as minhas carências!
No amor, descobri todas as harmonias todas as fantasias e todas as suas alegrias!
Do amor eu encontrei toda a solidão, toda a paixão e toda a minha salvação!
No amor distingui todos os prazeres todos os dizeres e todos os seus deveres.
Do amor eu conheci todos os queixumes, todos os seus perfumes e todos os meus ciúmes!
No amor eu vivi todos os delírios, e todos os martírios; todos os beijos e todos os nossos desejos!
No amor derramei todas as lágrimas, declarei todas as máximas! também encontrei todas as flores com todos os seus odores!
No amor deparei com todos os mistérios e todos os seus critérios! e todos eu levei, apaixonadamente, a sério!
Do amor desvendei todas as mágicas, usei todas as táticas e descobri todas as cartas enigmáticas!
No amor encontrei toda a ternura, toda a candura e todas as suas desventuras!
No amor encontrei toda a riqueza, toda a leveza e toda a sua pureza!
Do amor percebi toda a sua magnitude, toda a sua juventude e toda a sua inquietude!
No amor eu encontrei todos os sabores, todos os calores e todos os os dissabores!
No amor busquei tudo que ele nos traz: todo bem que ele nos faz, e de todo o seu Universo, descobri a paz”!

Marilena Frade

Nov192003

O que você quer ser?

Tive um daqueles momentos felizes e inesperados há algumas semanas. Estava no quarto trocando a fralda de um dos bebês quando nossa filha de 5 anos, Alyssa, entrou e pulou na cama ao meu lado.

- Mamãe, o que você quer ser quando crescer? – perguntou.

Achei que ela estava fazendo algum jogo imaginário e, para entrar na brincadeira, respondi dizendo:

- Huum. Acho que gostaria de ser mãe quando crescer.

- Você não pode ser isso porque você já é mãe. O que você quer ser quando crescer?

- Esta bem, talvez eu seja pastor de igreja quando crescer – respondi a segunda vez.

- Mamãe, não, você já é isso!

- Desculpe-me, querida – eu disse. – Mas então não estou entendendo o que eu devo dizer.

- Mamãe, só responda o que você quer ser quando crescer. Você pode ser qualquer coisa que quiser!

A esta altura eu estava tão enternecida com a experiência que não pude responder imediatamente. Alyssa desistiu e saiu do quarto.

Essa experiência – essa minúscula experiência de cinco minutos – tocou fundo dentro de mim. Fiquei emocionada porque, aos olhos jovens de minha filha, eu ainda podia ser qualquer coisa que quisesse ser! Minha idade, minha carreira atual, meus cinco filhos, meu marido, meu diploma, meu mestrado – nada disso tinha importância. Aos seus olhos jovens eu ainda podia sonhar e tentar alcançar as estrelas. Aos seus olhos jovens meu futuro não havia acabado. Aos seus olhos jovens eu ainda podia ser astronauta, pianista ou até mesmo cantora de ópera, talvez. Sob seu olhar jovem eu ainda tinha de crescer mais e tinha muito “ser” sobrando em minha vida.

A verdadeira beleza daquele encontro com minha filha foi quando eu percebi que, com toda sua honestidade e pureza, ela teria feito a mesma pergunta a seus avós ou a seus bisavós.

Já foi escrito: “A mulher velha que irei me tornar será bastante diferente da mulher que sou agora. Outro eu está começando…”

Então, o que você quer ser quando crescer?

Rev. Teri Johnson

Nov162003

Um amor perdido.

O amor é a difícil percepção de que algo além de nós mesmos é real. (Iris Murdoch)

Não sei porque deveria lhes contar isso. Eu não sou nada de especial. Não há nada que tenha acontecido comigo em minha vida inteirinha que não tenha acontecido com praticamente todo mundo deste planeta.
A não ser pelo fato de eu ter onhecido Rachel.
Nós nos conhecemos na escola. Nossos armários ficavam lado a lado e compartilhávamos aquele mesmo cheiro de folha de caderno novo, de tênis apenas começando a tomar o formato do pé e recortes com as fotos de nossos músicos favoritos presos com durex por dentro das portas dos armários.
Ela era linda e seu ar confiante indicava que tinha de estar namorando alguém. Alguém que fosse especial naquela escola. Eu? Eu estava dando um duro danado para continuar no time de atletismo e para tirar notas que me permitissem ser aceito na faculdade onde meus pais estudaram quando tinha a minha idade.
No dia em que conheci Rachel, ela sorriu e disse “oi”. Depois de olhar dentro daqueles carinhosos olhos castanhos, tive de sair correndo como se aquela fosse a primeira e última corrida de minha vida. Corri dezesseis quilômetros naquele dia e praticamente não perdi o fôlego.
Passamos o segundo semestre do ano conversando e rindo dos professores, dos nossos pais e da vida em geral, e discutindo o que faríamos quando nos formássemos. Estávamos, os dois, no último ano e era muito bom sentir-se “o rei do pedaço” por algum tempo. No final das contas, ela não estava namorando ninguém – o que era incrível. Havia terminado com um sujeito do time de natação durante as férias e não estava saindo com ninguém.
Eu nunca me dera conta de que podia conversar de verdade com alguém – com uma garota, eu quero dizer – do jeito que eu conversava com ela.
Então, um dia, o meu caro – uma lata velha que meu pai tinha comprado para mim justamente porque jamais correria – não quis dar partida. Era um daqueles dias cinzas e frios de outono e parecia que ia chover. Rachel passou por mim no estacionamento da escola, no conversível azul-turquesa do pai, e perguntou se podia me levar a algum lugar. Eu entrei. Ela estava ouvindo o último cd de david byrne e cantava com ele. Sua voz era bonita, bem mais bonita do que a de byrne – mas também, ele não passa de um sujeito magricelo, nada parecido com Rachel.
- Então, aonde quer ir? – perguntou, e seus olhos tinham um brilho de quem sabia alguma coisa a meu respeito que eu ignorava.
- Para casa, eu acho – respondi. Então, criei coragem e acrescentei: – A não ser que queira dar uma passada pelo Sonic.
Ela não disse nem sim, nem não, mas foi direto para o restaurante drive-in. Comprei algo para ela comer e ficamos ali sentados, conversando mais um pouco. Ela me olhou com aqueles olhos que pareciam enxergar tudo o que eu sentia e pensava. Seus dedos roçaram os meus lábios e tive certeza de que nunca sentiria algo mais forte por uma garota.
Rachel me contou como tinha vindo parar naquela cidadezinha. O pai era diplomata em Washington e, ao se aposentar, quis que ela fosse criada como uma garota de cidade do interior. Mas nada foi capaz de mudar seu jeito. Ela era sofisticada, segura e parecia sempre saber o que dizer. Ao contrário de mim. Mas ela fez alguma coisa se abrir dentro do meu coração.
Ela gostava de mim e, de repente, passei a gostar de mim também.
Ela apontou par ao pára-brisa.
- Olhe só – disse, rindo. – A gente embaçou as janelas. – E, enquanto a luz do dia desaparecia, eu me lembrei de minha casa, de meus pais, de meu carro.
Rachel me levou em casa e me deixou com um “até amanhã” e um aceno. Aquilo foi o bastante. Eu tinha conhecido a garota dos meus sonhos.
Depois daquele dia, começamos a sair, mas eu não diria que estávamos namorando. Nós nos encontrávamos para estudar e sempre acabávamos conversando e rindo das mesmas coisas.
Nosso primeiro beijo? Eu nunca contei isso para meus amigos porque eles achariam graça, mas foi ela quem me beijou da primeira vez. O único barulho que eu ouvia era o tique-taque do relógio. Ah, sim, e o meu coração martelando nos ouvidos como se fosse explodir.
Foi um beijo suave e breve. Depois, ela olhou no fundo dos meus olhos e me beijou outra vez – e dessa vez não foi um beijo tão suave, nem breve. Eu sentia o seu perfume e tocava os seus cabelos e, naquele momento, senti que poderia morrer e me alegrar por isso.
- Até amanhã – disse ela, e caminhou em direção à porta. Eu não conseguia dizer coisa alguma. Simplesmente a olhei partir e sorri.
Nós nos formamos e passamos o verão nadando, fazendo caminhadas, pescando, colhendo amoras e escutando suas músicas favoritas. Rachel tinha de tudo: de rhythm and blues a rock pesado e até mesmo clássicos como Vivaldi e Rachmaninoff. Eu me senti vivo como nunca havia me sentido antes. Tudo o que eu via, todos os aromas que sentia, tudo aquilo que tocava, era novo.
Estávamos deitados sobre uma manta no parque, certa vez, olhando para as nuvens. O rádio tocava jazz.
- Precisamos conversar – disse Rachel. – Já é quase época de irmos pra faculdade. – Ela deitou de bruços e olhou para mim. – Vai sentir saudades minhas? Vai pensar em mim de vez em quando? – e por um décimo de segundo achei que percebera em seu olhar uma certa dúvida, algo bem diferente de sua autoconfiança usual.
Eu a beijei e fechei os olhos de forma a não perceber mais nada além dela, única e exclusivamente ela. O seu cheiro, o seu sabor, o seu toque.
- Você é eu – declarei. – Como posso sentir saudades de mim mesmo?
Mas lá no fundo eu me sentia como se estivesse morrendo por dentro. Ela estava certa: cada dia que passava significava que estávamos chegando mais perto de nossa separação. Tentamos agir como se nada estivesse prestes a acontecer, como se nosso mundo não fosse mudar completamente em pouco tempo. Ela não falava em comprar roupas novas para levar para a faculdade, e eu não falava sobre o carro novo que meu pai tinha me dado. Continuamos a agir como se o verão fosse durar para sempre, como se nada pudesse nos mudar, nada pudesse mudar o nosso amor. E eu sei que ela me amava.
Estamos quase na primavera. Eu logo comaçarei o segundo ano de faculdade.
Rachel nunca escreve.
Ela disse que devíamos deixar tudo como estava, e não sei bem o que ela quis dizer com isso. Seus pais compraram uma casa na Virgínia, então eu sei que ela não voltará para nossa cidadezinha.
Hoje, ouço música com mais frequência, sempre olho duas vezes quando vejo um conversível azul-turquesa e presto mais atenção em tudo: na cor do céu e na brisa que sopra por entre as árvores.
Ela é eu e eu sou ela. Onde quer que esteja, ela sabe disso. Tudo o que vivi e aprendi com Rachel está incorporado ao meu ser. Sempre que penso nela, jogo meu desejo para o universo, pedindo que o acolha. Acredito que a resposta que vier será para o bem de nós dois.
T.J. Lacey

Te amo – Biafra

Nov132003

Filme “O Crime do Século”

Em 20 de maio de 1927, o norte-americano Charles Lindbherg cruzou o Atlântico em um avião monomotor, naquela que foi considerada a maior aventura da primeira metade do século. Por sua bravura o jovem piloto tornou-se herói nacional, ícone de toda uma geração de jovens americanos, sendo até hoje reverenciado por seu prodígio. Mas o fato mais marcante de sua atribulada vida não foi exatamente o ato heróico que o tornou famoso ou a posterior acusação de traição quando foi condecorado pelo Governo Nazista, mas uma tragédia de proporções históricas que sobre ele abateu-se: o seqüestro e morte de seu filho menor de 02 anos de idade. É disso que trata o filme O Crime do Século (Crime of the Century).

Cinco anos após a extraordinária façanha de cruzar sozinho o oceano Atlântico, o filho de Charles Lindbherg foi seqüestrado de sua residência em Louisiana. Este é o ponto de partida do filme naquele que se tornou o mais rumoroso julgamento do século naquele País.

Bruno Richard Hauptman, simples carpinteiro imigrante alemão, é a personagem principal do drama relatado no filme. De forma surpreendentemente acidental Hauptman vê-se envolvido no seqüestro do bebê Lindbherg e a partir daí desenvolve-se toda a trama caracterizada pelo confronto entre a angústia de um homem em sua luta para provar inocência e a comoção de toda uma Nação na ânsia para encontrar e punir os responsáveis pelo crime.

O filme mostra com clareza a condução do processo pelo Promotor de Justiça, David Wilentz, que inicialmente investigativo passa a tomar contornos de verdadeira armadilha para a imputação de culpa a Hauptman que jura inocência desde o início. A manipulação das provas materiais contra Hauptman (exame grafotécnico e pericial de objeto do crime) aliada à condução das provas testemunhais levam ao que seria o erro judiciário do século naquele País.

Um dado curioso do filme e que acaba tornando-se seu clímax é a cena da sessão de interrogatório de Hauptman com as perguntas feitas pelo Promotor Wilentz. Seja pelas perguntas e respostas, seja pelo comportamento do Acusador e do Réu, trata-se de uma reprodução fiel do verdadeiro evento, já que todo o julgamento foi documentado em filmes da época. Diante das câmeras o Promotor Wilentz agride ferozmente Hauptman e de forma ardilosa envolve o Réu em contradições para fundamentar sua culpa.

Enfoque Jurídico

O filme torna-se emblemático por vários aspectos jurídicos que envolvem o caso mas talvez o mais importante seja a influência que a paixão nacional pode exercer sobre um julgamento de relevo. A pressão exercida sobre os órgãos de apuração, acusação e julgamento pode acabar provocando o desrespeito aos mais basilares princípios de Direito e a conseqüente ruína da concretização da Justiça. Curiosamente foi a partir desse julgamento que as Cortes dos Estados Unidos passaram a proibir a realização de filmagem ou transmissão televisiva de sessões de julgamento, limitando-se a mostra de imagens curtas e sem áudio e, em certos casos, apenas a tradicional gravura a lápis.

Outro aspecto jurídico muito interessante é a utilização exasperada de instituto de contornos medievais: o plea guilty. A cada ponto do filme ao Acusado é oferecida proposta de confissão de culpa que a todo custo é negada. Mesmo após sua condenação à pena de morte ao Condenado é colocada a possibilidade de comutação de sua pena em prisão perpétua sob a condição de confissão de culpa, ao que recusou-se o Condenado até o momento de sua morte. O grande questionamento que se coloca é o contorno ético de tal instituto no processo criminal e conseqüentemente a relevância da confissão do réu.

Enfim, a cada ponto do filme o espectador é colocado diante do dilema entre a busca de uma Justiça justa ou uma conveniente à sociedade. Nesse parâmetro o espectador acaba tendo contato com os operadores do Direito retratados no filme, sua formação ética, seus propósitos e a que ponto podem chegar para justificarem seus ofícios. Sob todos esses aspectos o filme Crime do Século torna-se passagem obrigatória a todos que, como nós, optamos pela busca de um ideal de Justiça ética e justa.

Nov122003

No final das contas…

Acabei de assistir, exatamente agora, 02:45 da madrugada de terça para quarta, aqui em Recife, que não tem horário de verão, o filme “Gênio Indomável”.

Só tenho um simples comentário a fazer sobre o filme em comento: no final das contas, tudo é questão de amor, de amar alguém, de sentir que alguém é realmente especial para você… De que vale ter tudo na vida se não se tem alguém para amar, se não se tem alguém que ame você?

Quem assistiu o filme sabe do que estou falando.

E você, largaria tudo por um amor? O que faria por alguém que amasse mais do que tudo?

Nov102003

Eu me pergunto…

Durante meu primeiro ano no segundo grau, o Sr. Reynolds, meu professor de inglês, entregou a cada aluno uma lista de pensamentos e declarações escrita por outros alunos e, em seguida, nos passou um dever de redação baseado num daqueles pensamentos. Com dezessete anos, eu estava começando a pensar a respeito de muitas coisas, por isso escolhi a declaração: “Eu me pergunto por que as coisas são como são”.

Naquela noite, escrevi, em formato de narrativa, todas as perguntas que me deixavam confusa acerca da vida. Percebi que muitas delas eram difíceis de responder e que talvez outras não pudessem ser respondidas de forma alguma. Quando entreguei o trabalho, estava com medo de me sair al porque não tinha dado uma resposta à questão “Eu me pergunto por que as coisas são como são”. Eu não tinha resposta. Só tinha escrito perguntas.

No dia seguinte, o sr. Reynolds me chamou junto ao quadro-negro e pediu que eu lesse minha declaração para os outros alunos. Entregou-me o trabalho e sentou-se no fundo da sala. A turma ficou em silêncio quando comecei a ler:

“Mamãe, papai… por quê?

Mamãe, por que as rosas são vermelhas? Mamãe, por que a grama é verde e o céu é azul? Por que a aranha tem uma teia e não uma casa? Papai, por que não posso brincar com sua caixa de ferramentas? Professor, por que eu tenho que ler?
Mamãe, por que não posso usar batom para ir ao baile? Papai, por que não posso ficar na rua até meia-noite? Os outros garotos ficam. Mamãe, por que você me odeia? Papai, por que as outras crianças não gostam de mim? Por que tenho que ser tão magra? Por que tenho que usar óculos e aparelho nos dentes? Por que tenho que ter dezesseis anos?
Mamãe, por que tenho que me formar? Papai, por que tenho que crescer? Mamãe, papai, por que tenho que ir embora?
Mamãe, por que você não escreve com mais freqüência? Papai, por que tenho saudade dos meus velhos amigos? Papai, por que você me ama tanto? Papai, por que você me mima? Sua garotinha está crescendo. Mamãe, por que você não me visita? Mamãe por que é tão difícil fazer novos amigos? Papai, por que tenho saudades de casa?
Papai, por que meu coração dispara quando ele olha nos meus olhos?Mamãe, por que minhas pernas tremem quando eu ouço a voz dele? Mamãe, por que “estar apaixonada é a melhor sensação do mundo”?
Papai, por que você não gosta de ser chamado de “vovô”? Mamãe, por que os dedinhos do meu bebê se agarram com tanta força aos meus?
Mamãe, por que eles precisam crescer? Papai, por que eles têm que ir embora? Por que tenho que ser chamada de “vovó”?
Mamãe, papai, por que vocês tiveram que me deixar? Eu preciso de vocês.
Por que minha juventude passou por mim? Por que meu rosto mostra todos os sorrisos que eu já dei a um amigo ou a um estranho? Por que meu cabelo brilha com um tom prateado? Por que minhas mãos tremem quando me abaixo para pegar uma flor? Por que, meu Deus, as rosas são vermelhas?”

Quando terminei minha história, meus olhos se encontraram com os olhos do Sr. Reynolds e eu vi uma lágrima correndo no seu rosto. Foi então que percebi que a vida nem sempre é baseada nas respostas que recebemos, mas também nas perguntas que fazemos.

Christr Carter Koski

Nov82003

O grande dom da minha Mãe

“O otimismo é uma disposição alegre que permite que um bule de chá assovie apesar de estar com água guente até o nariz.” Anônimo.

Eu tinha dez anos de idade quando minha mãe teve paralisia, causada por um tumor na espinha dorsal. Antes disso ela havia sido uma mulher vibrante e vigorosa, de tal maneira ativa que a maioria das pessoas achava impressionante. Mesmo quando era pequena, tinha trinta e um anos, sua vida mudou. Assim como a minha. Do dia para a noite, parecia, ela passou a ficar deitada de costas em uma cama de hospital. Um tumor benigno a havia incapacitado, mas eu era jovem demais para compreender a ironia da palavra “benigno”, pois ela nunca mais seria a mesma.

Ainda tenho imagens vívidas dela antes da paralisia. Ela sempre foi gregária e recebia muitas visitas. Com freqüência passava horas preparando canapés e enchendo a casa de flores, que colhia frescas no jardim cultivado ao lado da casa. Selecionava as músicas populares da época e rearrumava a mobília a fim de abrir espaço para que os amigos pudessem se entregar à dança. Na realidade, era minha mãe quem mais gostava de dançar. Hipnotizada, eu a observava se vestir para as festividades noturnas.
Mesmo hoje em dia ainda me lembro de nosso vestido favorito, com sua saia preta e corpete de renda azul-marinho, o contraste perfeito para seu cabelo louro. Fiquei tão emocionada quanto ela no dia em que trouxe para casa sapatos de salto alto de renda preta e, naquela noite, minha mãe certamente era a mulher mais bonita do mundo.

Eu acreditava que ela podia fazer qualquer coisa, fosse jogar tênis (ganhara campeonatos na universidade), costurar (fazia todas as nossas roupas), tirar fotografias (ganhou um concurso nacional), escrever (era colunista de um jornal) ou cozinhar (especialmente pratos espanhóis para meu pai). Agora, apesar de não poder Fazer nenhuma dessas coisas, ela encarava sua doença com o mesmo entusiasmo que tinha em relação a tudo o mais. Palavras como “deficiente” e “fisioterapia” tornaram-se parte de um
estranho mundo novo no qual entramos juntas, e as bolas de borracha para crianças que ela se esforçava para apertar adquiriram um simbolismo que jamais haviam possuído. Gradualmente, passei a ajudar nos cuidados com a mãe que sempre cuidara de mim. Aprendi a cuidar do meu próprio cabelo – e do dela. Eventualmente, tornou-se rotina levá-la na cadeira de rodas até a cozinha, onde ela me ensinava a arte de descascar cenouras e batatas e como esfregar alho e sal e pedaços de manteiga em uma boa carne assada.

Quando, pela primeira vez, ouvi falarem em uma bengala, opus-me:
- Não quero que a minha linda mãe use uma bengala.
Mas a única coisa que ela disse foi:
- Não é melhor você me ver andando com uma bengala do que não me ver andando de maneira alguma?

Cada conquista era um marco para nós duas: a máquina de escrever elétrica, o carro com câmbio e freio automáticos, sua volta à
universidade, onde se diplomou em Educação Especial. Ela aprendeu tudo o que podia sobre as pessoas com deficiências e
acabou fundando um grupo ativista de apoio chamado Os Incapacitados. Certo dia, sem ter falado muito de antemão, ela me levou e a meus irmãos a uma reunião dos Incapacitados. Eu nunca vira tantas pessoas com tantas deficiências. Voltei para casa, silenciosamente introspectiva, pensando em como nós realmente tínhamos sorte. Ela nos levou muitas vezes depois disso e, eventualmente, a visão de um homem ou uma mulher sem pernas ou braços não nos chocava mais. Minha mãe também nos apresentou a vítimas de paralisia cerebral, enfatizando que a maioria era tão inteligente quanto nós, talvez mais. E nos ensinou a nos comunicarmos com os retardados mentais, mostrando como eles eram freqüentemente mais afetuosos, comparados às pessoas normais. Durante tudo isso, meu pai continuou a amá-la e apoiá-la.

Quando eu estava com onze anos, minha mãe me contou que ela e papai iriam ter um bebê. Muito depois, eu soube que seus médicos tinham insistido para que ela fizesse um aborto (terapêutico) – uma opção à qual ela resistiu veementemente. Logo, éramos mães juntas, já que virei mãe adotiva de minha irmã, Mary Therese. Em pouquíssimo tempo aprendi a trocar fraldas, banhá-la e alimentá-la. Ainda que mamâe tenha mantido a disciplina maternal, para mim foi um passo gigantesco além da brincadeira com bonecas. Um momento se destaca mesmo hoje em dia: o dia em que Mary Therese, na época com dois anos, caiu e esfolou o joelho, abriu-se em prantos e passou correndo pelos braços estendidos de minha mãe para os meus. Tarde demais, eu vislumbrei a faísca de dor no rosto de mamãe, mas tudo que ela disse foi: – É natural que ela corra para você, pois você toma conta dela tão bem…

Como minha mãe aceitava sua condição com tanto otimismo, raramente me senti triste ou ressentida. Mas nunca irei esquecer o dia em que minha complacência foi destruída. Muito tempo depois da imagem de minha mãe em salto agulha ter se dissipado da minha consciência, houve uma festa em nossa casa. A essa altura eu era adolescente, e vi minha sorridente mãe sentada na lateral, olhando seus amigos dançarem, e fui atingida pela cruel ironia de suas limitações físicas. Subitamente, fui transportada de volta à época de minha primeira infância e a visão de minha mãe dançando radiante estava novamente diante de mim. Imaginei se mamãe se lembraria também. Espontaneamente, andei em sua direção e então vi que, apesar de estar sorrindo, seus olhos estavam marejados de lágrimas. Corri para fora do aposento e para o meu quarto, enterrei meu rosto no travesseiro e chorei copiosamente, todas as lagrimas que ela jamais chorara. Pela primeira vez, eu me enraiveci contra Deus e contra a vida e suas injustiças para com a minha mãe.

A lembrança do sorriso brilhante de minha mãe permaneceu comigo. Daquele momento em diante, enxerguei sua habilidade de superar a perda de tantas batalhas anteriores e seu ímpeto em olhar para a frente – coisas que eu tomava por certas – como um grande mistério e uma poderosa inspiração. Quando eu estava crescida e comecei a trabalhar com o sistema penal, mamãe se interessou em trabalhar com os prisioneiros. Ela telefonou para a penitenciária e pediu para dar aulas de Redação Criativa para os detentos. Lembro-me de como eles se amontoavam em volta dela sempre que ela chegava e pareciam se agarrar a cada palavra sua, como eu fizera na infância.

Mesmo quando não podia mais se deslocar até a prisão, ela freqüentemente se correspondia com vários detentos. Um dia pediu-me para enviar uma carta para um prisioneiro, ” Waymon”. Perguntei se poderia lê-la antes e ela concordou, sem perceber, eu acho, o quanto aquilo seria revelador para mim. Dizia:

“Querido Waymon,
Quero que saiba que tenho pensado em você com freqüência desde que recebi sua carta. Você mencionou como é difícil estar preso atrás das grades e meu coração se une ao seu. Mas quando você disse que eu não imagino o que é estar na prísão, senti-me compelida a dizer-lhe que está errado. Existem diferentes tipos de liberdade, Waymon, diferentes tipos de prisões. Às vezes, nossas prisões são auto-impostas.
Quando, com a idade de trinta e um anos, levantei-me um dia para descobrir que estava completamente paralisada, senti-me em uma armadilha – dominada pela sensação de estar presa dentro de um corpo que não mais me permitiria correr através de uma campina, dançar ou carregar minha filha nos braços.
Figuei deitada ali durante muito tempo, lutando para chegar a um acordo com minha enfermidade, tentando não sucumbir em autopiedade. Perguntei-me se, na verdade, valeria a pena viver nessas condições, se não seria melhor morrer.
Pensei a respeito desse conceito de prisão, pois me parecia que havia perdido tudo o que importava na vida. Eu estava próxima do desespero.
Mas, então, um dia me ocorreu que, na realidade ainda havia opções abertas para mim e que eu tinha a liberdade de escolher entre elas. Será que eu iria sorrir quando visse meus filhos de novo, ou iria chorar? Iria zangar-me com Deus, ou iria pedir que Ele fortalecesse minha fé?
Em outras palavras, o que eu iria fazer com o livre-arbítrio que Ele havia me dado e que ainda era meu?
Tomei a decisão de lutar, enguanto estivesse viva, para viver o mais plenamente possível, para procurar tornar minhas experiências aparentemente negativas em experiências positivas, procurar formas de transcender minhas limitações fisicas expandindo minhas fronteiras mentais e espirituais. Eu podia escolher entre ser um exemplo positivo para meus filhos ou podia murchar e morrer emocional assim como fisicamente.
Existem muitos tipos de liberdade, Waymon. Quando perdemos um tipo de liberdade, temos que simplesmente procurar por outro. Você e eu somos abençoados com a liberdade de escolher entre bons livros, que iremos ler, quais deixaremos de lado.
Você pode olhar para as suas grades ou pode olhar através delas. Você pode ser um exemplo para prisioneiros mais jovens ou pode se misturar com os encrengueiros. Você pode amar a Deus e buscar conhecê-Lo ou pode virar as costas para Ele. Até certo ponto, Waymon, estamos nisso juntos.”

Quando finalmente terminei de ler a carta, minha visão estava borrada pelas lágrimas. Ainda assim, pela primeira vez, eu enxerguei minha mãe com clareza.

E eu a entendi.

Marie Ragghianti

Nov72003

Criando Raízes.

“Nossa força vem de nossas fraquezas”.
Ralph Waldo Emerson

Quando eu era pequeno, tinha um velho vizinho chamado Dr. Gibbis. Ele não se parecia com nenhum médico que eu jamais houvesse conhecido. Todas as vezes que eu o via, ele estava vestido com um macacão de zuarte e um chapéu de palha cuja aba da frente era de plástico verde transparente. Sorria muito, um sorriso que combinava com seu chapéu – velho, amarrotado e bastante gasto. Nunca gritava conosco por brincarmos em seu jardim. Lembro-me dele como alguém muito mais gentil do que as circunstâncias justificariam.

Quando o Dr. Gibbis não estava salvando vidas, estava plantando árvores. Sua casa localizava-se em um terreno de dez acres e seu objetivo na vida era transformá-lo em uma floresta.

O bom doutor possuía algumas teorias interessantes a respeito da jardinagem. Ele era da escola do “sem sofrimento não há crescimento”. Nunca regava as novas árvores, o que desafiava abertamente a sabedoria convencional. Uma vez perguntei-lhe por quê. Ele disse que molhar as plantas deixava-as mimadas e que, se nós as molhássemos, cada geração sucessiva de árvores cresceria cada vez mais fraca. Portanto, tínhamos que tornar as coisas difíceis para elas e eliminar as árvores fracas logo do início.

Ele falou sobre como regar as árvores fazia com que as raízes não se aprofundassem e como as árvores que não eram regadas tinham que criar raízes mais profundas para procurar umidade. Achei que ele queria dizer que raízes mais profundas deveriam ser apreciadas.

Portanto, ele nunca regava suas árvores. Plantava um carvalho e, ao invés de regá-lo todas as manhãs, batia nele com um jornal enrolado. Smack! Slape! Pou! Perguntei-lhe porque fazia isso e ele disse que era para chamar a atenção da árvore.

O Dr. Gibbis faleceu alguns anos depois. Saí de casa. De vez em quando passo por sua casa e olho para as árvores que o vi plantar há cerca de vinte e cinco anos. Estão fortes como granito agora. Grandes e robustas. Aquelas árvores acordam pela manhã, batem no peito e bebem café sem açúcar.

Plantei algumas árvores há alguns anos. Carreguei água para elas durante um verão inteiro. Borrifei-as. Rezei por elas. Todos os nove metros do meu jardim. Dois anos de mimo resultaram em árvores que querem ser servidas e paparicadas. Sempre que sopra um vento frio elas tremem e balançam os galhos. Árvores maricas.

Uma coisa engraçada a respeito das árvores do Dr. Gibbis: a adversidade e a privação pareciam beneficiá-las de um modo que o
conforto e a tranqüilidade nunca conseguiram.

Todas as noites, antes de ir dormir, dou uma olhada em meus dois filhos. Olho-os de cima e observo seus corpinhos. O sobe e desce da vida dentro deles. Freqüentemente rezo por eles. Rezo principalmente para que tenham vidas fáceis: “Senhor, poupe-os do sofrimento”. Mas, ultimamente, venho pensando que é hora de mudar minha oração.

Essa mudança tem a ver com a inevitabilidade dos ventos gelados que nos atingem em cheio. Sei que meus filhos irão encontrar
dificuldades e minha oração para que isto não aconteça é ingênua. Sempre há um vento gelado soprando em algum lugar.

Portanto, estou mudando minha oração vespertina. Porque a vida é dura, quer o desejemos ou não. Ao invés disso, vou rezar para que as raízes de meus filhos sejam profundas, para que eles possam retirar forças das fontes escondidas do Deus eterno.

Muitas vezes rezamos por tranqüilidade, mas essa é uma graça muito difícil de alcançar. O que precisamos fazer é rezar por raízes mais profundas, para que quando as chuvas caiam e os ventos soprem não sejamos varridos em direções diferentes.

Philip Gulley

Still Got The Blues – Stanley Jordan

Nov52003

Pais Maus

O texto comovente e realista, a seguir, foi publicado recentemente por ocasião da morte estúpida de Tarcíla Gusmão e Maria Eduarda Dourado, ambas com 16 anos, em Pernambuco. Depois de 13 dias desaparecidas, as mães revelaram desconhecer os proprietários da casa, onde as filhas tinham ido curtir o fim de semana. O crime permanece sem solução. Vale a pena refletir até onde pode ir a liberdade de um adolescente.

“Um dia, quando meus filhos forem crescidos o suficiente para entender a lógica que motiva os pais e as mães, eu hei de dizer-lhes:
- Eu os amei o suficiente para ter perguntado aonde iam, com quem iam e a que horas regressariam.
- Eu os amei o suficiente para os fazer pagar as balas que tiraram do supermercado ou revistas do jornaleiro, e os fazer dizer ao dono: “Nós pegamos isto ontem e queríamos pagar”.
- Eu os amei o suficiente para ter ficado em pé junto de vocês, duas horas, enquanto limpavam o quarto, tarefa que eu teria feito em 15 minutos.
- Eu os amei o suficiente para os deixar ver além do amor que eu sentia por vocês, o desapontamento e também as lágrimas nos meus olhos.
- Eu os amei o suficiente para os deixar assumir a responsabilidade de suas ações, mesmo quando as penalidades eram tão duras que me partiam o coração.
- Mais do que tudo, eu os amei o suficiente para dizer-lhes “não”, quando eu sabia que vocês poderiam me odiar por isso (e em alguns momentos até odiaram).

Essas eram as minhas batalhas mais difíceis, mas estou contente, venci… porque vocês venceram também!
E em qualquer dia, quando meus netos forem crescidos o suficiente para entender a lógica que motiva os pais e as mães, quando eles lhes perguntarem se seus pais eram maus, meus filhos lhes dirão: “Sim, eles eram maus. Os mais maus do mundo…”

- As outras crianças comiam doces no café e nós tínhamos que comer cereais, ovos e torradas.
- As outras crianças bebiam refrigerantes e comiam batatas fritas e sorvete no almoço e nós tínhamos que comer arroz, feijão, carne, legumes e frutas.
- E eles nos obrigavam a jantar à mesa, bem diferente dos outros pais que deixavam seus filhos comerem vendo televisão.
- Eles insistiam em saber onde estávamos a toda hora (tocavam nosso celular de madrugada e fuçavam nos nossos e-mails). Era quase uma prisão. (Eu, Cirilo Veloso Moraes, discordo desta frase. Não entendo que excesso de vigilância e invasão de privacidade seja coerente).
- Eles tinham que saber quem eram nossos amigos e o que nós fazíamos com eles. Insistiam que deveríamos dizer com quem íamos sair, mesmo que demorássemos apenas uma hora ou menos.
- Nós tínhamos vergonha de admitir, mas eles “violavam as leis do trabalho infantil”. Nós tínhamos que tirar a louça da mesa, arrumar nossas bagunças, esvaziar o lixo e fazer todo esse tipo de trabalho que achávamos cruéis.
- Eu acho que eles nem dormiam à noite, pensando em coisas para nos mandar fazer.
- Eles sempre insistiam para que lhes disséssemos sempre e apenas a verdade. E quando éramos adolescentes, eles conseguiam até ler os nossos pensamentos.
- A nossa vida era mesmo chata. Eles não deixavam os nossos amigos tocarem a buzina para que saíssemos, tinham que subir, bater à porta, para eles os conhecerem.
- Enquanto todos podiam voltar tarde da noite, com 12 anos, tivemos que esperar pelos 16 para chegar um pouco mais tarde, e aqueles chatos levantavam para saber se a festa foi boa (só para ver como estávamos ao voltar). Por causa deles, nós perdemos imensas experiências na adolescência:
- Nenhum de nós esteve envolvido com drogas, em roubo, em atos de vandalismo, em violação de propriedade, nem fomos presos por nenhum crime. Foi tudo por causa deles.

E agora que já somos adultos, honestos e educados, estamos a fazer o nosso melhor para sermos “PAIS MAUS”, como meus pais foram.

Eu acho que este é um dos males do mundo de hoje: não existem suficientes “PAIS MAUS”.”

Nossos Pais – Elis Regina

Nov42003

Grande qualidade de vida.

Antigamente, não havia qualidade de vida. Quer dizer, não se falava em qualidade de vida. Agora só se fala em qualidade de vida e, em matéria de qualidade de vida, sou um dos sujeitos mais ameaçados que conheço. Na verdade, me dizem que venho experimentando uma considerável melhora de qualidade de vida, mas tenho algumas dúvidas. Minha qualidade de vida, na minha modesta opinião pessoal, não tem melhorado essas coisas todas, com as providências que me fazem tomar e as violências que sou obrigado a cometer contra mim mesmo. Geralmente suporto bem conversas sobre qualidade de vida, mas tendo cada vez mais a retirar-me do círculo ou recinto onde me encontro, quando começam a falar nela.

A comida mesmo me faz estar considerando, no momento, comprar uma balança de precisão e um computador de bolso com um programa alimentar especial. Antes eu comia do que gostava. Fui criado, por exemplo, com comida frita na banha de porco ou, mais tarde, na gordura de coco. Meus avós, todos mortos depois dos noventa (com exceção do que só comia o saudabilíssimo azeite de oliva – e ele morreu de AVC) comiam banha de porco e torresmo regularmente, mas, claro, ainda não tinha sido informados de que se tratava de prática mortal. Aliás, comida saudável, que se ensinava nos manuais até para crianças, era composta de leite integral, ovos, pão (com manteiga), carne vermelha ou peixe frito, então, era uma maravilha para estômagos delicados – frutas e legumes à vontade.

Depois disso, até atingirmos a atual qualidade de vida, fulminaram o leite. Alimento completo, passou a ser encarado com desconfiança, e hoje não sei de ninguém que beba leite integral, a não ser, talvez, algum gorila do Zoológico. O ovo sofreu ataque violentíssimo, assim como o açúcar, a ponto de, tenho certeza, várias receitas tradicionais de doces serem hoje achados arqueológicos, e as poucas que restam constituam uma imitação desenxabida das que empregavam ingredientes normais e não essas massas e líquidos insossos que vivem distribuindo, como leite, manteiga etc. Claro, mudaram de idéia a respeito do ovo recentemente, mas a mudança de idéias deles só pode ser vista com desconfiança.

Não houve o tempo, e não é preciso ser nenhum Matusalém para lembrar, em que para substituir a manteiga era exigida margarina, alimento saudabilíssimo, que não fazia nenhuma das monstruosidades operadas pela manteiga? O negócio era margarina e durou bastante, até que descobriram que margarina pode ser até pior do que manteiga. Melhor, na verdade, abolir manteiga inteiramente. E margarina, claro, nem pensar. Carne vermelha é uma abominação. Carne de porco é um terror. Vísceras de qualquer tipo devem ser evitadas como o diabo foge da cruz. Açúcar, meu Deus! Sorvete? Só para crianças, e crianças de pais irresponsáveis. Aliás, é um bom desafio achar algo unanimemente aprovado pelos nutricionistas, a não ser, tudo indica, capim.

Mas ninguém pode viver de capim, de maneira que, relutantemente, deixam a gente comer uma coisinha qualquer, contanto que não ultrapassemos o limite de calorias e não ingiramos o proibido e, mesmo assim, com restrições. Peixe cozido ou grelhado, por exemplo, geralmente pode, mas paira sobre seu infeliz consumidor a ameaça de que não esteja fresco ou esteja contaminado por metais pesados e pelo lixo que jogam em rios e mares. Peito de frango (e eu que sou homem de coxas e antecoxas) também assusta, por causa dos hormônios que dão às galinhas e as neuroses que elas desenvolvem, nascendo sem mãe e sendo criadas em cubículos em que mal podem se mexer, a ponto de terem de ser debicadas, para não se autodevorarem histericamente. Ou seja, mesmo comendo um peito de galinha sem uma gota de qualquer gordura e acompanhado somente por matos e alguns legumes (cuidado com a contaminação de tomates, cenouras e alfaces!), o infeliz se arrisca.

Mas vou usar o computador para calcular as calorias, as gorduras e outras características de cada refeição, porque, agora que minha qualidade de vida está melhorando a cada dia, preciso ser coerente. Fumar, não mais, nem uma pitadinha depois do café (que ninguém sabe direito se faz bem ou faz mal, temperado com adoçante, que também ninguém sabe se faz bem ou faz mal). Beber, esqueça, vai deixar você demente aos 60, além de dar cirrose e hepatite. O famoso copinho de vinho, além de ser uma porção ridícula, também está sendo questionado no momento. Parece que não é bem assim, e uma autoridade no assunto disse outro dia no jornal que o melhor é tomar suco de uva – não industrializado, é claro, por causa dos aditivos.

Restam também os exercícios. Fico felicíssimo, quando, suando e bufando no calçadão, sinto o ar fresco invadir os meus pulmões (preferia logo uma tenda de oxigênio), as pernas doendo e a certeza de que minha qualidade de vida vai cada vez melhor. Até minha pressão arterial (13 a 14 por 8), que era considerada boa para minha idade, agora já é alta e o pessoal dos 12 por 8 já começa a entrar na faixa de risco. Enfim, é duro manter esta boa qualidade de vida, ainda mais agora que me anunciam que caminhadas somente não bastam, tem de malhar também. Ou seja, temos que nos dedicar o tempo todo a manter nossa qualidade de vida. Mas, aqui entre nós, se vocês no futuro virem um gordão tomando caldinho de feijão com torresmo no boteco, depois de um chopinho, e o acharem vagamente parecido comigo, talvez seja eu mesmo, sofrendo de uma pavorosa qualidade de vida. A diferença é grande. Tanto eu quanto vocês vamos morrer do mesmo jeito, mas vocês, depois da excelente qualidade de vida que estão desfrutando aí com sua rúcula com suco de brócolis, vão ter uma ótima qualidade de morte, falecendo em perfeita saúde e eu lá, no meu velório, com um sorriso obeso e contente no rosto dissoluto.

João Ubaldo Ribeiro

Como diria minha amiga Catarina Oliveira, no fim das contas “qualidade de vida está no quanto sentimo-nos felizes apesar dos pesares”… Viver uma vida satisfatoriamente feliz. Quer ter uma saúde de primeira? Um corpinho maravilhoso? Ótimo. Entretanto, não cultue excessivamente o corpo; não se torne um escravo da forma; não prefira o continente ao conteúdo. Cultive, sim, a mente, as amizades, os prazeres… Viva, porque a vida é agora.

We all need some light – Transatlantic