Aug222008

Álcool e direção: uma péssima combinação.

Péssima combinaçãoNos idos de 1982, mais precisamente em 25 de janeiro, eu viajava pela rodovia Rio-Santos rumo a Paraty (RJ), com meu marido na direção do veículo, quando repentinamente, na altura de Ubatuba (SP), um Ford Corcel desgovernado atravessou a pista e colheu nosso carro de frente, pela contramão, em alta velocidade. Com o choque, sofri várias fraturas e perdi a consciência. Fiquei alguns dias desacordada.
Estava grávida de sete meses e quase perdi o bebê. Meu marido teve o joelho esmigalhado, ficou meses hospitalizado.
Meu filho sentiu o impacto, ameaçou nascer antes do tempo, mas sobreviveu. Ainda hoje me arrepia pensar no risco imenso que corremos e no sofrimento prolongado pelo qual tivemos que passar.
No veículo que nos abalroou, havia seis jovens espremidos, dentre os quais um motorista completamente embriagado. Eles elegeram o carro como o local da ‘balada’ e fizeram a festa em plena Rio-Santos. Uma garrafa de cachaça quase totalmente consumida foi encontrada sob o banco traseiro.
Por incrível que pareça, o motorista causador de tantos danos físicos e morais foi processado e absolvido pelo então juiz de Ubatuba. Não houve recurso e o causador de tanta desgraça jamais foi punido.
As estatísticas mostram números astronômicos de mortes causadas por motoristas que dirigem sob efeito do álcool, mas os dados referentes aos feridos dificilmente são computados. O estrago provocado pela combinação entre a ingestão de álcool e a condução de veículo automotor é bem maior do que se imagina.
Todos nós conhecemos histórias tristes a esse respeito, mas a bebida alcoólica continua sendo cultuada quase como divindade.
Beber é verdadeira obrigação nas atividades de lazer. As pessoas se reúnem para ingerir álcool, a amizade é secundária, tudo o mais é secundário. As letras de música ajudam a reforçar esse mito: ‘minha casa tem goteira, pinga ni mim, pinga ni mim’, ou ‘eu bebo, sim, e estou vivendo, tem gente que não bebe e está morrendo, eu bebo, sim!’, ou ‘em vez de tomar chá com torrada ele bebeu paraty’, ou ainda ‘as águas vão rolar, garrafa cheia eu não quero ver sobrar’…
De acordo com nossas leis, beber é um direito dos maiores de 18 anos, porém é muito perigoso. O álcool é uma droga passível de abuso freqüente, gera dependência e causa mais mortes e ferimentos do que sonha nossa vã filosofia.
Há acidentes e crimes que não são atribuídos à bebida nas estatísticas, quando, na verdade, deveriam ser.
Não são poucos os que morrem por atropelamento ao sair, cambaleando, do bar; nem poucas as mulheres que apanham costumeiramente de maridos embriagados. São infinitas as possibilidades de estragar a própria vida e a de terceiros por causa do álcool.
Fechar os bares mais cedo já reduziu muito a criminalidade. Agora, surge a lei nº 11.705/08, que modificou o artigo 206 do Código de Trânsito Brasileiro e recrudesceu a punição para quem bebe e dirige veículo automotor. As estatísticas, logo após a promulgação da lei, mostraram a diminuição dos acidentes de trânsito.
Todos deveriam se sentir aliviados, mas, estranhamente, há muitos inconformados, bradando a inconstitucionalidade, a arbitrariedade, o retrocesso, o cerceamento injustificável trazido pela lei, mas ingerir álcool e dirigir é uma rematada irresponsabilidade. Merece punição severa.
A lei nº 11.705/08 foi apelidada de ‘lei seca’, mas, na verdade, não é. Ela não proíbe o consumo de bebida alcoólica, apenas limita as possibilidades de quem ingere álcool, proibindo-o de dirigir.
A lei seca ‘pegou’ justamente porque estávamos precisando dela. Por sua baixa tolerância, tem importante papel educativo. O álcool não pode ser difundido a todo momento e em todos os lugares como a maior maravilha de todos os tempos, a cura para todos os males, a verdadeira diversão, pura alegria engarrafada. Está com gripe? Tome um conhaque. Está combalido? Tome um vinho. Está nervoso? Tome um uísque. Está contente? Celebre com um champanhe. Está na praia? Tome uma caipirinha. Acabou de jantar? Tome um licor…
A pressão é enorme em favor do álcool, assumido por alguns como verdadeira religião. Quem gosta de beber não vai sofrer cerceamento, só é proibido dirigir veículo depois. Não há razão para tanta gritaria.

Lei Seca, uma boa idéia.

Luiza Nagib Eluf , 53 anos, é Procuradora de Justiça. Foi secretária nacional dos direitos da cidadania e é autora de ‘A Paixão no Banco dos Réus’, entre outras obras.

Bad Day – Alvin, o Esquilo

Comente você também



Você gostou daqui? Então  assine o feed RSS dos posts e todas as vezes que o blog for atualizado você será avisado. Para mais explicações, clique aqui. É grátis!

11 Respostas

Comment RSS Trackback URL
  1. YvonneAugust 22nd, 2008
  2. CarlaAugust 22nd, 2008
  3. DOAugust 22nd, 2008
  4. Lulu on the sky®August 22nd, 2008
  5. Hermínia NadaisAugust 22nd, 2008
  6. elisabetecunhaAugust 22nd, 2008
  7. NewAugust 23rd, 2008
  8. Lila RoseAugust 23rd, 2008
  9. larissaAugust 24th, 2008
  10. EngraçadinhaAugust 24th, 2008
  11. VanAugust 24th, 2008

Deixe um comentário


Você pode marcar a caixa de seleção acima e ser avisado por email de cada novo comentário deixado nesse post. De qualquer maneira, a minha resposta a seu comentário será feita por e-mail.