Taças e Cálices

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Sobre taças e cálices. Ou: o que o casamento me ensinou sobre o amor. *

*Revista Cláudia ( Junho de 2003)

Sempre que me convidam a opinar sobre casamento inevitavelmente me vem à cabeça taças de champanhe e cálices de vinho.

Essas taças e esses cálices são os que ganhamos, minha mulher e eu, no dia do nosso casamento. Na lista de casamento, as taças e os cálices são os meus itens preferidos. Claro que geladeiras, por exemplo, são literalmente um presentão. E que presentinhos como tupperwares não são incríveis no estilo originalidade, mas são práticos, sim, e necessários e bem-vindos. Mas quem dá taças ou cálices não está se preocupando com a vida prática. Está, na verdade, investindo na comemoração, na alegria, no momento especial, no tintim.

Imagine um dia na vida de recém-casados.

Eles despertam. Usaram, assim, os lençóis que foram presente da vovó. Tomam café usando as xícaras que foram presente de uma das sogras. Têm um longo dia de trabalho usando as underwears que ganharam de um dos cunhados. Voltam para casa pensando no que vão fazer com o bendito conjunto de fondue que ganharam da vizinha. Ou, antes: onde enfiar a maldita racleteira do bendito conjunto de fondue. Ao chegar, tomam banho usando as toalhas que ganharam de um dos sogros. Logo depois do jantar (em que eles usam as travessas que ganharam de uma das cunhadas), o casal coloca um cd (que era dele antes do casamente), acende um incenso (que ela tinha desde que namorava outro cara) e bebe um vinho.

Finalmente, comungam, um dando atenção a si e ao outro, um chegando a si e ao outro. Pois é nesse instante, breve se pensarmos nas muitas horas do dia, que o casal está convivendo com o presente de um grande amigo do peito: os cálices.

Se o vinho e o papo forem bons, provavelmente os lençóis, presente da vovó, serão bem utilizados em seguida.

E o ciclo no próximo dia se repetirá, até um novo momento de paz, este, quem sabe, com chamapanhe e com o presente de uma grande amiga do peito: as taças.

Taças e cálices são o que fazem o casamento não ser, argh, um matrimonio. em uma mulher não ser, argh, uma esposa. Mas se você esta imaginando que o casamento me faz pensar em taças e cálices porque acredito que uma vida a dois não resiste sem doses de carinho, sem momentos de delicadeza, sem intervalos amorosos, isso e verdade. Mas não é toda verdade.

A verdade.

O casamento também me faz pensar em taças e cálices porque casamentos duram, duram, duram e um dia essas taças e esses cálices começam a quebrar. Sim, quebra uma taça em um jantarzinho a luz de velas, quebra outra em uma festa de aniversário, quebra um cálice quando os dois, meio bêbados, se encaminham até o quarto, quebra outro por descuido, na pia da cozinha. E quebram várias e vários quando chegam os filhos. Assim, a gente vê ali, no armário da sala, a passagem do tempo. Nossa coleção de copos (difícil achar sinônimos para taças e cálices) vai sofrendo dramáticas e terríveis baixas… (repare: as fotos na prateleira também estão ficando mais desbotadas a cada dia).

E ali na frente do armário, parado no meio da sala a gente se pega perguntando: apenas as taças e os cálices não resistirão à longevidade do casamento?O nosso frágil amor resistirá? Quebraremos nos também, eu um cálice, ela uma taça?

Será que o tempo, implacável, exige que um homem, pra continuar cônjuge, seja resistente e opaco feito um tupperware? E que uma mulher seja forte e fria feito uma geladeira? Não. Sinceramente acho que não.

Taças e cálices ensinam que a fragilidade é bem-vinda. É mais que bem-vinda: é fundamental. É bom que, com o tempo, às coisas se quebrem, mesmo que sejam coisas muito queridas por nós. Cacos, vamos assim dizer, são didáticos.

Cacos didáticos?

As pessoas costumam dizer que vão perdendo as ilusões à medida que o tempo passa. E falam isso como se fosse ruim se desiludir. Perder ilusões é sabedoria. Ilusão é truque. Ilusão é mentira, ilusão é ilusão. Não acredita? Olhe no dicionário. Ou olhe pra vida.

Amor é amor quando você prefere sua mulher a uma mera tapeação. Amor é amor quando você aprecia mais seu homem do que um sonho dourado.

E é isso que o casamento ensina sobre amor – ou ao amor.

Quando você perde ilusões ganha na vida real. Em vez de ficar perseguindo uma quimera, descobre que já chegou, faz tempo a um bom lugar. A sua própria casa.

Sábios copos.

Por isso que o tema casamento me remete a taças de champanhe e cálices de vinho, às taças e aos cálices que ganhamos, minha mulher e eu, na festa de casamento.

Esses copos chegaram a nossa vida em um dia de celebração. Depois, com o tempo, se revelaram parceiros sempre que a celebração, não importando o dia, voltava a tomar conta das nossas vidas.

E então, esses sábios copos despediram-se na hora certa, a tempo de deixar bem claro que a celebração, afinal, não estava neles. Mas em nós, marido e mulher. A ponto de hoje em dia, o marido e a mulher estarem convencidos de que é preciso comprar taças e cálices novos para casa. Os deuses estão exigindo novos sacrifícios em nome da saúde desse casal. Precisamos fazer novos brindes, quebrar novas taças, estraçalhar novos cálices.

Transparências

E como casamento também me remete a taças e cálices, casamento acaba me remetendo a transparências. Faz sentido.

Quando mais tempo duas pessoas convivem, mais elas ficam transparentes uma para outra.

E isso não é ruim.

Isso é AMOR!

Marcelo Pires

Depoimento: Fica melhor com o tempo!
Um analista financeiro conta como o sentimento se tornou mais intenso com a vida a dois.

“Trabalho no mercado financeiro, Adriana é bailarina (ou do show business, como gosto de dizer, só para mexer com ela). São mundos muito diferentes, mas isso não compromete nossa relação. Como por enquanto a gente não tem filho, consegue observar bem um ao outro, ver como o sentimento vai mudando com o tempo. Áinda é amor, cada vez mais forte. Mas a sensação de insegurança e superficialidade dos tempos de namoro já se foi. Naquela época amor era sinônimo de diversão e muita coisa boa feita a dois. Planos, só a curto prazo: baladas e viagens com muitos beijos, bebidas e risadas. Puro prazer. Engraçado como o casamento tornou meu amor mais cauteloso. Agora quero vuidar dela. é a pessoa que faz parte da minha história e sonha, chora e aprende junto comigo. O que era uma coisa de pele, passou a ser de alma, corre na veia. Eu em sinto muito só quando a adriana demora a voltar dos ensaios. Gosto de dormir ao seu lado, mesmo ao acordar descoberto e com frio enquanto ela está tranquila, enrolada no edredom. Saio de casa de manhã, quando ela ainda está deitada. Mas não vou embora sm um beijo d edespedida. Ela responde com um: “Se cuida viu!” E aperta meu braço com aquele carinho que estufa meu coração de sentimento.” Carlos S. Barros, 33 anos.

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Suspirando, caro leitor ou leitora? rsrrsrs…
Eu também estou…

Ahhh, o amor… acredito nele, sim.
E como acredito…

Excelente semana a todos vocês.

Manas Bhajo Re – Meeta Ravindra

Comentários

  1. Débora disse

    Já tem mais de um ano que te visito, mas nunca comentei, mas a cada dia fico mais maravilhada com as suas palavras. Vc é de uma sensibilidade, sabe tocar bem no fundo do coração, acho que vc é o sonho de consumo de muitas mulheres(com todo o respeito a sua namorada). Continue nos encantado com suas mensagens. Beijos e muita felicidade!!!!

  2. Gilda disse

    Cirilo, eu nao te conheco pessoalmente. Mas … um dia matando saudades da terrinha,conheci voce atravez do que voce deixa aqui. Posso entender que voce e um garoto muito lindo de coracao e posso dizer isso porque tenho idade pra ser a tua mae.Mas isso que voce deixou escrito aqui hoje e simplesmente o que muitos casais nao veem e ou nao querem ver. Pequenos detalhes que fazem a diferenca na vida de um casal.Mas…
    Pra voce e a Paulinha que tmbem nao conheco eu desejo tudo de melhor do que voces proprios ja fazem por voces mesmo ! Pois a felicidade nao esta em outra parte , senao em nos mesmos e juntar voces dois parece a sinfonia perfeita. Continui assim lindo de coracao, mente e junto a toda familia como eu pude ver nas fotos. Um dia poderei conhece-los pessoalmente. Estou em Houston, TX. Mas sou dessa terrinha maravilhosa. Beijos no seu coracao.

  3. Keke disse

    Oi lindo!
    Conhecia essa reportagem que saiu na Claúdia. Muito bonita mesmo.
    Estar apaixonado e feliz, acho que são as melhores coisas da vida.
    Ótima semana pra vc.

  4. Talita disse

    Olá Cirilo… Andei meio sumida, não dava tempo de passar por aqui, + agora acabou a correria da facu… Vou voltar a frequentar seu site diariamente… E ae como vão as coisas ai em cima?? Aqui em baixo está tudo bem graças a Deus…
    Ei, passa lá no meu fotolog http://www.fotolog.terra.com.br/talycortez deixa um comentário seu lá hein…
    Bjinhus… Uma ótima semana pra vc…

    Talita

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