Nov162003

Um amor perdido.

O amor é a difícil percepção de que algo além de nós mesmos é real. (Iris Murdoch)

Não sei porque deveria lhes contar isso. Eu não sou nada de especial. Não há nada que tenha acontecido comigo em minha vida inteirinha que não tenha acontecido com praticamente todo mundo deste planeta.
A não ser pelo fato de eu ter onhecido Rachel.
Nós nos conhecemos na escola. Nossos armários ficavam lado a lado e compartilhávamos aquele mesmo cheiro de folha de caderno novo, de tênis apenas começando a tomar o formato do pé e recortes com as fotos de nossos músicos favoritos presos com durex por dentro das portas dos armários.
Ela era linda e seu ar confiante indicava que tinha de estar namorando alguém. Alguém que fosse especial naquela escola. Eu? Eu estava dando um duro danado para continuar no time de atletismo e para tirar notas que me permitissem ser aceito na faculdade onde meus pais estudaram quando tinha a minha idade.
No dia em que conheci Rachel, ela sorriu e disse “oi”. Depois de olhar dentro daqueles carinhosos olhos castanhos, tive de sair correndo como se aquela fosse a primeira e última corrida de minha vida. Corri dezesseis quilômetros naquele dia e praticamente não perdi o fôlego.
Passamos o segundo semestre do ano conversando e rindo dos professores, dos nossos pais e da vida em geral, e discutindo o que faríamos quando nos formássemos. Estávamos, os dois, no último ano e era muito bom sentir-se “o rei do pedaço” por algum tempo. No final das contas, ela não estava namorando ninguém – o que era incrível. Havia terminado com um sujeito do time de natação durante as férias e não estava saindo com ninguém.
Eu nunca me dera conta de que podia conversar de verdade com alguém – com uma garota, eu quero dizer – do jeito que eu conversava com ela.
Então, um dia, o meu caro – uma lata velha que meu pai tinha comprado para mim justamente porque jamais correria – não quis dar partida. Era um daqueles dias cinzas e frios de outono e parecia que ia chover. Rachel passou por mim no estacionamento da escola, no conversível azul-turquesa do pai, e perguntou se podia me levar a algum lugar. Eu entrei. Ela estava ouvindo o último cd de david byrne e cantava com ele. Sua voz era bonita, bem mais bonita do que a de byrne – mas também, ele não passa de um sujeito magricelo, nada parecido com Rachel.
- Então, aonde quer ir? – perguntou, e seus olhos tinham um brilho de quem sabia alguma coisa a meu respeito que eu ignorava.
- Para casa, eu acho – respondi. Então, criei coragem e acrescentei: – A não ser que queira dar uma passada pelo Sonic.
Ela não disse nem sim, nem não, mas foi direto para o restaurante drive-in. Comprei algo para ela comer e ficamos ali sentados, conversando mais um pouco. Ela me olhou com aqueles olhos que pareciam enxergar tudo o que eu sentia e pensava. Seus dedos roçaram os meus lábios e tive certeza de que nunca sentiria algo mais forte por uma garota.
Rachel me contou como tinha vindo parar naquela cidadezinha. O pai era diplomata em Washington e, ao se aposentar, quis que ela fosse criada como uma garota de cidade do interior. Mas nada foi capaz de mudar seu jeito. Ela era sofisticada, segura e parecia sempre saber o que dizer. Ao contrário de mim. Mas ela fez alguma coisa se abrir dentro do meu coração.
Ela gostava de mim e, de repente, passei a gostar de mim também.
Ela apontou par ao pára-brisa.
- Olhe só – disse, rindo. – A gente embaçou as janelas. – E, enquanto a luz do dia desaparecia, eu me lembrei de minha casa, de meus pais, de meu carro.
Rachel me levou em casa e me deixou com um “até amanhã” e um aceno. Aquilo foi o bastante. Eu tinha conhecido a garota dos meus sonhos.
Depois daquele dia, começamos a sair, mas eu não diria que estávamos namorando. Nós nos encontrávamos para estudar e sempre acabávamos conversando e rindo das mesmas coisas.
Nosso primeiro beijo? Eu nunca contei isso para meus amigos porque eles achariam graça, mas foi ela quem me beijou da primeira vez. O único barulho que eu ouvia era o tique-taque do relógio. Ah, sim, e o meu coração martelando nos ouvidos como se fosse explodir.
Foi um beijo suave e breve. Depois, ela olhou no fundo dos meus olhos e me beijou outra vez – e dessa vez não foi um beijo tão suave, nem breve. Eu sentia o seu perfume e tocava os seus cabelos e, naquele momento, senti que poderia morrer e me alegrar por isso.
- Até amanhã – disse ela, e caminhou em direção à porta. Eu não conseguia dizer coisa alguma. Simplesmente a olhei partir e sorri.
Nós nos formamos e passamos o verão nadando, fazendo caminhadas, pescando, colhendo amoras e escutando suas músicas favoritas. Rachel tinha de tudo: de rhythm and blues a rock pesado e até mesmo clássicos como Vivaldi e Rachmaninoff. Eu me senti vivo como nunca havia me sentido antes. Tudo o que eu via, todos os aromas que sentia, tudo aquilo que tocava, era novo.
Estávamos deitados sobre uma manta no parque, certa vez, olhando para as nuvens. O rádio tocava jazz.
- Precisamos conversar – disse Rachel. – Já é quase época de irmos pra faculdade. – Ela deitou de bruços e olhou para mim. – Vai sentir saudades minhas? Vai pensar em mim de vez em quando? – e por um décimo de segundo achei que percebera em seu olhar uma certa dúvida, algo bem diferente de sua autoconfiança usual.
Eu a beijei e fechei os olhos de forma a não perceber mais nada além dela, única e exclusivamente ela. O seu cheiro, o seu sabor, o seu toque.
- Você é eu – declarei. – Como posso sentir saudades de mim mesmo?
Mas lá no fundo eu me sentia como se estivesse morrendo por dentro. Ela estava certa: cada dia que passava significava que estávamos chegando mais perto de nossa separação. Tentamos agir como se nada estivesse prestes a acontecer, como se nosso mundo não fosse mudar completamente em pouco tempo. Ela não falava em comprar roupas novas para levar para a faculdade, e eu não falava sobre o carro novo que meu pai tinha me dado. Continuamos a agir como se o verão fosse durar para sempre, como se nada pudesse nos mudar, nada pudesse mudar o nosso amor. E eu sei que ela me amava.
Estamos quase na primavera. Eu logo comaçarei o segundo ano de faculdade.
Rachel nunca escreve.
Ela disse que devíamos deixar tudo como estava, e não sei bem o que ela quis dizer com isso. Seus pais compraram uma casa na Virgínia, então eu sei que ela não voltará para nossa cidadezinha.
Hoje, ouço música com mais frequência, sempre olho duas vezes quando vejo um conversível azul-turquesa e presto mais atenção em tudo: na cor do céu e na brisa que sopra por entre as árvores.
Ela é eu e eu sou ela. Onde quer que esteja, ela sabe disso. Tudo o que vivi e aprendi com Rachel está incorporado ao meu ser. Sempre que penso nela, jogo meu desejo para o universo, pedindo que o acolha. Acredito que a resposta que vier será para o bem de nós dois.
T.J. Lacey

Te amo – Biafra

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