Jan222014

Alguém especial. É isso que você quer ou um monte de gente basta?

diariopaixao

“Ficar com muita gente é fácil”, diz um amigo meu, com pouco mais de 25 anos. “Difícil é achar alguém especial”.

Faz algum tempo que tivemos essa conversa. Ele tentava me explicar por que, em meio a tantas garotas bonitas, a tantas baladas e viagens, ele não se decidia a namorar.

Ele não disse que estava sobrando mulher. Não disse que seria um desperdício escolher apenas uma. Não falou em aproveitar a juventude ou o momento e nem alegou que teria dificuldade em escolher. Disse apenas que é difícil achar alguém especial.

Na hora, parado com ele na porta do elevador, aquilo me pareceu apenas uma desculpa para quem, afinal, está curtindo a abundância. Foi depois que eu vim a pensar que existe mesmo gente especial, e que é difícil topar com uma delas.

Claro, o mundo está cheio de gente bonita. Também há pessoas disponíveis para quase tudo, de sexo a asa delta. Para encontrar gente animada, basta ir ao bar, descobrir a balada, chegar na festa quando estiver bombando. Se você não for muito feio ou muito chato, vai se dar bem. Se você for jovem e bonita, vai ter possibilidade de escolher. Pode-se viver assim por muito tempo, experimentando, trocando de gente sem muita dor e quase sem culpa, descobrindo prazeres e sensações que, no passado, estariam proibidos, especialmente às mulheres.

Mas talvez isso tudo não seja suficiente.

Talvez seja preciso, para sentir-se realmente vivo, um tipo de sensação que não se obtém apenas trocando de parceiro ou de parceira toda semana. Talvez seja preciso, depois de algum tempo na farra, ficar apaixonado. Na verdade, ficar apaixonado pode ser aquilo que nós procuramos o tempo inteiro – mas isso, diria o meu jovem amigo, exige alguém especial.

Desde que ele usou essa fatídica expressão, eu fiquei pensando, mesmo contra a minha vontade, sobre o que seria alguém especial, e ainda não encontrei uma resposta satisfatória. Provavelmente porque ela não existe.

Você certamente já passou pela sensação engraçada de ouvir um amigo explicando, incansavelmente, por que aquela garota por quem ele está apaixonado é a mulher mais linda e mais encantadora do mundo – sem que você perceba, nela, nada de especial. OK, a garota é bonitinha. OK, o sotaque dela é charmoso. Mas, quem ouvisse ele falando, acharia que está namorando a irmã gêmea da Mila Kunis. Para ele ela é única e quase sobrenatural, e isso basta.

Disso se deduz, eu acho, que a pessoa especial é aquela que nos faz sentir especial.

Tenho uma amiga que anda apaixonada por um sujeito que eu, com a melhor boa vontade, só consigo achar um coxinha. Mas o tal rapaz, que parece que nasceu no cartório, faz com que ela se sinta a mulher mais sensual e mais arrebatada do planeta. É uma química aparentemente inexplicável entre um furacão e um copo de água mineral sem gás, mas que parece funcionar maravilhosamente. Ela, linda e selvagem como um puma da montanha, escolheu o cara que toma banho engravatado, entre tantos outros que se ofereciam, por que ele a faz sentir-se de um modo que ninguém mais faz. E isso basta.

É preciso admitir que há gente que parece especial para todo mundo. Não estou falando de atores e atrizes ou qualquer dessas celebridades que colonizam as nossas fantasias sexuais como cupins. Falo de gente normal extremamente sedutora. Isso existe, entre homens e entre mulheres. São aquelas pessoas com quem todo mundo quer ficar. Aquelas por quem um número desproporcional de seres humanos é apaixonado. Essas pessoas existem, estão em toda parte, circulam entre nós provocando suspiros e viradas de pescoço, mas não acho que sejam a resposta aos desejos de cada um de nós. Claro, todo mundo quer uma chance de ficar com uma pessoa dessas. Mas, quando acontece, não é exatamente aquilo que se imaginava. Você pode descobrir que a pessoa que todo mundo acha especial não é especial para você.

Da minha parte, tendo pensado um pouco, acho que a pessoa especial é aquele que enche a minha vida. Ela é a resposta às minhas ansiedades. Ela me dá aquilo que eu nem sei que eu preciso – às vezes é paz, outras vezes confusão. Eu tenho certeza que ela é linda por que não consigo deixar de olhá-la. Tenho certeza que é a pessoa mais sensual do mundo, uma vez que eu não consigo tirar as mãos dela. Certamente é brilhante, já que ela fala e eu babo. E, claro, a mulher mais engraçada do mundo, pois me faz rir o tempo inteiro. Tem também um senso de humor inteligentíssimo, visto que adora as minhas piadas. Com ela eu viajo, durmo, como, transo e até brigo bem. Ela extrai o melhor e o pior de mim, faz com que eu me sinta inteiro.

Deve ser isso que o meu amigo tinha em mente quando se referia a alguém especial. Se for isso vale a pena. As pessoas que passam na nossa vida são importantes, mas, de vez em quando, alguém tem de cavar um buraco bem fundo e ficar. Essas são especiais e não são fáceis de achar.

Ivan Martins

Seu jeito de amar – Gerlane Lops

Comente aqui você também
Dec302013

Ano Novo! Novo Dia!

semente1

Ano Novo é sempre uma excelente oportunidade de aprender, de trabalhar e de servir. O tempo, paternal amigo, como que se reencarnasse no corpo do calendário, descerra-nos horizontes mais claros para a necessária ascensão.

Lembra-te que o ano novo é novo dia a te convocar para a execução de antigas promessas que ainda não tivestes a coragem de cumprir.

Se tens inimigos, faz das horas o caminho da reconciliação.

Se foste ofendido, perdoa, a fim de que o amor te clareie a estrada para frente.

Se descansaste em demasia, volta ao arado de tuas obrigações e planta o bem com destemor para a colheita do porvir.

Se a tristeza te requisita, esquece-a e procura a alegria serena da consciência tranquila no dever bem cumprido.

Ano Novo! Novo Dia!

Sorri para os que te feriram e busca harmonia com aqueles que não te entenderam até agora.

Recorda que há mais ignorância que maldade em torno de teu destino.

Não maldigas nem condenes.

Auxilia a acender alguma luz para quem passa ao teu lado, na inquietude da escuridão.

Não te desanimes nem te desconsoles.

Cultiva o bom ânimo com os que te visitam dominados pelo frio do desencanto ou da indiferença.

Não te esqueças de que Jesus jamais se desespera conosco e, como que oculto ao nosso lado, paciente e bondoso, repete-nos de hora a hora: Ama e auxilia sempre. Ajuda aos outros amparando a ti mesmo, porque se o dia volta amanhã, eu estou contigo, esperando pela doce alegria da porta aberta de teu coração.

Fonte: “Carta de Ano Novo”, pelo Espírito Emmanuel, no livro “Vida e Caminho”, psicografado por Chico Xavier.

Comente aqui você também
Aug12013

O caminho de volta

retorno

“O caminho de volta” foi escrito há alguns anos pela jornalista e publicitária Téta Barbosa (que mora em Recife, minha cidade), e foi originalmente publicado na Coluna do Noblat, no Jornal O Globo. Trata de um despertar, de um resgate de quem se é… Ainda que no texto ela simbolize o próprio caminho, é bem possível que sirva de reflexão para muitos de nós. Quem sabe sirva para resgatarmos o nosso próprio caminho, em qualquer dimensão da vida, seja profissional, pessoal, espiritual. Quem sabe… Portanto, compartilho aqui com vocês.

Já estou voltando. Só tenho 37 anos e já estou fazendo o caminho de volta.

Até o ano passado eu ainda estava indo. Indo morar no apartamento mais alto do prédio mais alto do bairro mais nobre. Indo comprar o carro do ano, a bolsa de marca, a roupa da moda. Claro que para isso, durante o caminho de ida, eu fazia hora extra, fazia serão, fazia dos fins de semana eternas segundas-feiras.

Até que um dia, meu filho quase chamou a babá de mãe!

Mas, com quase 40 eu estava chegando lá.

Onde mesmo?

No que ninguém conseguiu responder, eu imaginei que quando chegasse lá ia ter uma placa com a palavra FIM. Antes dela, avistei a placa de RETORNO e nela mesmo dei meia volta.

Comprei uma casa no campo (maneira chique de falar, mas ela é no meio do mato mesmo.) É longe que só a gota serena. Longe do prédio mais alto, do bairro mais chique, do carro mais novo, da hora extra, da babá quase mãe.

Agora tenho menos dinheiro e mais filho. Menos marca e mais tempo.

E num é que meus pais (que quando eu morava no bairro nobre me visitaram 4 vezes em quatro anos) agora vêm pra cá todo fim de semana? E meu filho anda de bicicleta e eu rego as plantas e meu marido descobriu que gosta de cozinhar (principalmente quando os ingredientes vêm da horta que ele mesmo plantou).

Por aqui, quando chove a internet não chega. Fico torcendo que chova, porque é quando meu filho, espontaneamente (por falta do que fazer mesmo) abre um livro e, pasmem, lê. E no que alguém diz “a internet voltou!” já é tarde demais porque o livro já está melhor que o Facebook, o Twitter e o Orkut juntos.

Aqui se chama ALDEIA e tal qual uma aldeia indígena, vira e mexe eu faço a dança da chuva, o chá com a planta, a rede de cama.

No São João, assamos milho na fogueira. Nos domingos converso com os vizinhos. Nas segundas vou trabalhar contando as horas para voltar.

Aí eu lembro da placa RETORNO e acho que nela deveria ter um subtítulo que diz assim: RETORNO – ÚLTIMA CHANCE DE VOCÊ SALVAR SUA VIDA!

Você provavelmente ainda está indo. Não é culpa sua. É culpa do comercial que disse: “compre um e leve dois”.

Nós, da banda de cá, esperamos sua visita. Porque sim, mais dia menos dia, você também vai querer fazer o caminho de volta.

Tudo de bom e até muito breve. Acho que vou pegar um retorno e ir ali em “Aldeia”… Quem sabe até, como se diz nas bandas de cá, “fazer uma visitinha” à Téta e filar o que o marido dela preparou para o jantar…

Papas da Língua e Adriana Calcanhoto – Sorte

Seja o primeiro a comentar
May272013

Iluminar a escuridão!

light-up-the-darkness-3

Não sei se todos sabem, mas Bob Marley acreditava de verdade que poderia “curar” racismo e ódio injetando música e amor na vida das pessoas.

Um dia ele estava organizando uma apresentação para um comício em nome da paz, quando atiradores entraram em sua casa e atiraram nele.

Dois dias depois ele subiu ao palco e cantou, disseminando o bem e o amor através de sua música.

Na ocasião alguém perguntou para ele: – “Porquê?”

Ao que ele respondeu: “As pessoas que tentam tornar esse mundo pior não tiram um dia de folga… Como é que eu vou tirar?”

Para mim, Cirilo Veloso Moraes, música é uma questão de gosto, algo muito peculiar, mas assim como Bob Marley, acredito que é possível “iluminar a escuridão” disseminando o amor e o bem para todas as pessoas. E se as pessoas que tentam tornar este Mundo um lugar pior não tiram um dia sequer de folga, se dia após dia insistem em fazer e incentivar o mal, eu também não descansarei um único dia no propósito de fazer e incentivar o bem.

Bob Marley – Redemption Song

Comente aqui você também
Dec182012

Os 5 principais arrependimentos antes de morrer

Regrets

Uma enfermeira, diante de sua experiência com pacientes terminais, publicou um livro sobre os cinco principais arrependimentos que eles relataram, os cinco maiores arrependimentos antes de morrer revelados. Ei-los:

1) Gostaria de ter tido coragem de viver uma vida fiel a mim mesmo, e não a vida que os outros esperavam de mim…

2) Gostaria de não ter trabalhado tanto…

3) Gostaria de ter tido coragem de expressar meus sentimentos…

4) Gostaria de ter mantido contato com meus amigos…

5) Gostaria de ter me deixado ser mais feliz…

Há um vídeo no Youtube publicado pelo Hospital Albert Einstein, com mais detalhes acerca dos arrependimentos listados, feitos pela Geriatra Especialista em Cuidados Paliativos, Dra. Ana Cláudia Arantes, bem como uma pesquisa de rua com algumas pessoas. Vale a pena conferir e refletir.

Comente aqui você também
Dec32012

Como fazer a escolha mais delicada de sua vida?

Escolher é difícil. Pergunte a um psicólogo e ele vai explicar por que gente obrigada a optar entre uma coisa e outra – qualquer que sejam essas coisas – sente ansiedade. Isso acontece em lojas de sapato, em restaurantes, na porta do cinema e até no sexo. Uma amiga me contou outro dia como foi estar numa festa e ter dois homens sedutores dando em cima dela. “Tive de escolher um deles, mas com um aperto no coração”, ela me disse. No dia seguinte, o bonitão que ela escolheu caiu no vácuo e nunca mais deu notícias. Escolher, ela aprendeu, é abrir mão de alguma outra coisa – e as consequências podem ser irreversíveis.

Infelizmente para nós, nem todas as escolhas são tão simples quanto a do sexo na balada. Penso na escolha mais delicada que a gente faz na vida, aquela que envolve os parceiros de longo prazo. Em que momento concluímos que uma pessoa deixou de ser apenas item de prazer ou fonte de encantamento e se tornou a criatura com quem vamos dividir a vida? Pode ser casando, comprando apartamento e tendo filhos, ou, de forma menos ritualizada, pondo os sentimentos e necessidades dela no centro da nossa vida, mesmo vivendo em casas separadas. O compromisso é parecido, assim como os caminhos que levam a ele.

A primeira coisa que conta nas grandes escolhas – eu acho – é a permanência. Ninguém tem direito a reivindicar um posto dessa importância sem ter ralado um tanto. Não adianta a Fulana decidir, em 30 dias, que vai ser sua mulher para o resto da sua vida. Não funciona assim. O teste do tempo é fundamental. Se aquela mulher ou aquele sujeito continua lá depois de todas as discussões e inevitáveis desencontros, se ela ou ele resolveu ficar depois de todas as chances de ir embora, se os seus sentimentos em relação a ele ou ela continuam vivos, um bom motivo há de haver.

É essencial, também, que a experiência de convívio seja boa. Amores tumultuados dão bons filmes e péssimas vidas. É essencial acordar no sábado e ter vontade de ficar mais tempo na cama, enrolado naquele ser ao seu lado. Se a conversa antes de dormir deixou de ser gostosa ou se qualquer programa parece mais interessante do que a companhia dela ou dele, para que insistir? O prazer que o outro proporciona é essencial. Prazer de transar, prazer de olhar, prazer de ouvir, prazer de simplesmente estar. Se você caminha pela rua com ela e os dois são capazes de rir um com o outro, algo vai bem. Se você passa a tarde com ele no sofá, lendo ou transando, e o dia parece perfeito, eis um bom sinal. A felicidade não tem receita, mas a gente percebe quando está funcionando.

Para que as coisas funcionem no longo prazo é essencial haver lealdade. Eu cuido, eu protejo, eu respeito – e você faz o mesmo comigo. Se você não sente que seus sentimentos e a sua vida são importantes para ele ou para ela, desista. Como o ambiente lá fora é hostil, é essencial saber que no interior da relação existe cumplicidade e abrigo, com um grau elevado de honestidade: você diz o que pensa e isso vai ajudar, ainda que doa. É impossível prometer que coisas ruins jamais irão acontecer, é falso garantir que os sentimentos permanecerão os mesmos para sempre, mas é essencial olhar nos olhos do outro e sentir a disposição de tentar, verdadeiramente, que seja assim. Aqui, agora, de todo o coração, tem de ser para sempre – ou então a gente nem começa.

Se tudo isso existir – e não é fácil – ainda fará falta um quarto elemento, essencial ao equilíbrio duradouro das relações: os planos. Se ele que ter cinco filhos e você não quer ser mãe, não vai rolar. Se ela quer levar uma vida de viagens e aventura e o seu sonho é ficar aqui mesmo, perto das famílias e dos amigos, não deu. Viver bem pressupõe afinidades essenciais de gosto, sentimento e expectativas, sem falar de ideologia. Todas essas coisas se refletem nos planos. Eu penso no amor como um voo de longa distância. O avião precisa estar carregado com o tempo da relação, com o prazer que ela proporciona e com a lealdade em que ela está baseada – mas as pessoas ainda têm de concordar sobre o destino. Se eu quero ir à Tóquio e você à Nova York, precisamos embarcar em vôos diferentes.

Ivan Martins

Comente aqui você também
Nov92012

Autoajuda pra mim é cachaça, o resto é conversa fiada.

Autoajuda pra mim é cachaça, o resto é conversa fiada. Tá bom: ioga, psicanálise, ikebana e danças de salão podem nos ajudar a entrar em harmonia com nosso próprio eu, nos tornarmos seres humanos mais evoluídos e blábláblá, mas quando o pé amado toca a incauta bunda, neguinho não vai sentar-se em flor de lótus, escarafunchar seu processo edípico, podar a samambaia nem dançar um tango argentino: vai é manguaçar.

É só ali, já mais perto da última dose que da primeira, limados os graves e agudos – naquela quarta dimensão etílica: nem dentro nem fora de nós mesmos –, que podemos respirar aliviados, encher o peito e dizer que aquela ingrata não vale nada, que nós somos maiores que isso e que a vida, meu amigo, a vida é uma coisa assim, a vida é assim uma coisa… Enfim, uma coisa dessas que a gente diz sobre a vida quando está bêbado.

Se nas avalanches emocionais o nosso amigo álcool aparece como um são-bernardo salvador, em nossos projetos mais ousados ele surge como um cão-guia, um labrador a nos indicar os caminhos para além do labirinto de nossas inibições. Em outras palavras: sem o álcool eu seria virgem até hoje. Em plena adolescência ficar pelado diante de uma menina, sóbrio? Só um psicopata seria capaz de tamanha frieza.

O que mais lastimo é que os chopes só tenham vindo transformar asfalto em edredom quando eu já era quase um adulto. Como é que na infância, a fase mais hardcore da vida, só havia groselha, Fanta Uva e Toddynho em meu copo? Ah, se na quarta série eu conhecesse as benesses do álcool, Joana, tudo teria sido diferente!

Lembra quando te pedi em namoro numa cartinha? Você disse não. Mas é claro! Que passo desastrado, mandar uma carta a alguém que você nunca beijou na boca perguntando uma coisa dessas. Só um ser humano completamente sóbrio cometeria tamanha patacoada. Se ao invés do bilhete tivesse te convidado pra tomar um chope na cantina, te contasse aquela piada de português que meu tio Aristides havia me ensinado, te mostrado habilmente como fazer uma boca de loco incrementada, um aviãozinho que dava looping, quem sabe, Joana, eu e você, na quarta série, hein?

Bem, se eu tinha sobrevivido ao primeiro dia de aula da primeira série, a seco, não seria na quarta que a coisa iria degringolar. Lembro bem daquele dia. Eu havia passado dos dois aos seis anos numa outra escola. A vida toda, portanto. Não conhecia ninguém ali. Era praticamente um exilado político brasileiro chegando na Suécia. Imagina só se tivéssemos todos tomado um uisquinho antes? Chegaríamos confiantes, sorridentes, sem nem nos preocuparmos se seríamos aceitos ou se já na segunda aula ganharíamos para sempre o apelido de Dumbo, Gordo, Anão… E se durante o recreio – aquele climão de banho de sol em penitenciária –, em vez de comermos Cebolitos, ensimesmados em nossa timidez, tomássemos um vinho em canequinhas da Turma da Mônica, em torno da cantina? O entrosamento seria tão mais fácil. (A educação física ficaria comprometida, mas quem liga para polichinelos diante da concórdia universal?)

A dura jornada tinha na volta, na perua, seu gran finale. Depois de cinco horas estudando aquelas coisas chatas, uma hora e meia no trânsito, buzina, estresse. Se nossas mamães pusessem uma garrafa térmica na lancheira com caipirinha, essas longas jornadas noite adentro seriam inesquecíveis happy hours, road movies infantis. E nós todos ali dentro, pequenos Kerouacs e Dennis Hoppers mirins, cruzaríamos a cidade a cantar a plenos pulmões os últimos sucessos do Balão Mágico, Menudo e Trem da Alegria, alheios ao resto do mundo.

Se na escola já era difícil, imagina aos dois anos, quando você se deu conta, desesperado, que a mulher da sua vida tinha outro? Que aquela dissimulada te alimentou falsas esperanças enquanto se deitava com outro toda noite e, pior, esse outro era seu próprio pai! Ah, nesse momento o maternal deveria ser um pub enfumaçado cheio de pobres diabos dilacerados diante desse protocorno incurável – essa feriada cuja ilusão de cura nos atirará em todas as maiores roubadas de nossas vidas dali pra frente, do jardim dois até a cova. Aguardente na mamadeira era o mínimo que eu esperava diante dessa hecatombe emocional e, no entanto, só nos ofertaram Hipoglós, nana nenê e leite morno. Como são cruéis esses adultos.

Agora, se de todos os momentos trágicos da vida eu pudesse escolher um, somente um, para receber o afago etílico em minh’alma, seria obviamente o nascimento. Nós estávamos no quentinho, boiando, recebendo comida na barriga, numa eterna soneca de manhã chuvosa de domingo, quando veio aquele aperto, aquele barulho, aquela luz terrível e o frio, meu Deus, que frio. Nesse momento um ser humano sensato deveria ter me olhado nos olhos, percebido o profundo desamparo e, clemente, dado uma talagada duma aguardente qualquer e dito: bebe, criança, bebe que a vida é dura, bebe que a vida é longa e não tem mesmo o que fazer. Mas não, me viraram de ponta a cabeça, me deram um tapa na bunda e ficaram me vendo chorar, sorrindo. Depois de um começo assim a gente pensa o quê? Que vai resolver na análise? Na ioga? Fazendo arranjo de flores? Dançando chá-chá-chá? Não, meu irmão: autoajuda pra mim é cachaça, o resto é conversa fiada.

Antônio Prata, em “Meio intelectual, meio de esquerda”.

Sirano e Sirino – Mulher Ingrata e Fingida

Comente aqui você também
Oct192012

“Cinquenta tons de cinza” e a cultura repressora dos desejos femininos.

O “sucesso” do romance erótico “Cinquenta Tons de Cinza”, da britânica Erika Leonard James, é tanto que comecei a pensar nos motivos pelos quais o livro causou tanto frisson nas mulheres. Depois de folhear as páginas do primeiro livro e de ler várias críticas e opiniões sobre ele (e as sequências da trilogia – Cinquenta tons mais escuros e Cinquenta tons de liberdade), como as de Ivan Martins, Contardo Calligaris, Nathalia Ziemkiwicz, Ruth de Aquino, ratifiquei uma antiga constatação: a de que vivemos numa sociedade provinciana e culturalmente repressora dos desejos femininos. Aquela velha história: “Meninos podem; meninas não!”.

Talvez por isso as feministas tenham odiado; por E.L. James supostamente manter o domínio masculino sobre a “fragilidade” feminina. Pura bobagem… Não precisam gostar de sadomasoquismo ou coisas do gênero, mas as mulheres ocupam altos cargos, dirigem empresas, cuidam de casa, de filhos, etc, qual o problema em admitir que depois de um dia repleto de obrigações tudo que querem é ser dominadas sexualmente e terem muito prazer através dessa entrega? Não creio que isso as tornem menos feministas. Penso inclusive que saber e se deixar “entregar” é uma arte. Mas isso é assunto para desenvolver numa outra oportunidade…

Voltando ao livro, particularmente não vi nada demais, nada que me fizesse como Anastasia tantas vezes dizer “Uau!” diante das novidades apresentadas pelo poderoso Christian Grey. Muito pelo contrário. Afinal, cresci, fui educado e convivo até hoje com mulheres livres de repressões sexuais. Então sou livre e trato, falo e faço sexo com a mesma naturalidade com que respiro. Mas adorei a possibilidade de muitas mulheres poderem abrir seus horizontes e admitirem sem medo de serem censuradas que gostam de sexo tanto quanto nós homens gostamos. E que inclusive não são necessariamente complicadas a ponto de só gostarem de sexo se ele for sutil, indireto e repleto de subentendidos e preliminares, como a Anastasia de James. Quem disse que elas não podem gostar de sexo simples e direto, que também se excitam com o corpo e o pênis do homem? Por que limitar e engessar a mente? Sexo não deve ser algo padronizado; ele é natural e singular. O segredo é encontrar o que nos é semelhante e permitir o encaixe.

Como sugeriu uma leitora, e eu concordo plenamente, o que diferencia o desejo do homem e da mulher não é essencialmente biológico. É cultural. Pensem nisso. Lembro de como fui repreendido há muitos anos atrás, ainda quando adolescente, quando sugeri publicamente a campanha “Mulheres, masturbem-se!”. Mais de quinze anos depois e de muitas experiências vividas continuo incentivando: “Mulheres, masturbem-se!”. E vou além: Falem de sexo! Façam sexo! Permitam-se! Vocês são livres para gostar de sexo e vivê-lo em toda sua intensidade.

Rita Lee – Doce Vampiro

Comente aqui você também
Sep42012

- “Morri. E agora?”, relatos de um Político.

Sentia dores, estava inquieto no leito daquele hospital moderno e luxuoso. A família me fazia companhia, eles estavam tristes, abatidos e lagrimosos. Não dormia tranquilo, meu sono era agitado e tinha pesadelos, nos quais escutava vozes me dizendo impropérios. Acordei e não abri os olhos; escutei meu filho e meu genro conversando baixinho.

- Temos que tomar todas as providências. Seu pai, pelo que nos dizem os médicos, irá falecer logo. Temos que tirar o dinheiro de seu nome, até mesmo, fechar aquelas contas bancárias.

- Você tem razão, vou agora mesmo falar com mamãe, ela tem conta conjunta com ele. Com certeza minha mãe nos dará autorização para fecharmos aquelas contas e colocarmos o dinheiro no meu e no seu nome. É mais seguro!

Magoei-me, porém eles estavam fazendo o que eu sempre fizera: sendo práticos. Os dois tinham razão. Aquele dinheiro não deveria continuar no meu nome. Tremi de medo. Eles falaram que estava morrendo. E pela primeira vez, indaguei-me o que seria morrer.

Havia frequentado, pelo social, para arrecadar votos, muitas igrejas, templos, e ouvido vários sermões, aos quais, infelizmente, não dera muita atenção. Mas algumas coisas do que ouvira, vieram naquele instante a minha mente: “Eu acabaria com a morte?”. Ao pensar nesse fato, apavorei-me. Acho que ninguém quer ser extinto. Creio que nada se acaba, até pela lei da natureza, tudo se transforma, e comecei a pensar: “Céu ou inferno?” Prefiro que não existam, senão irei com certeza para o inferno. “Dormirei até o julgamento?” Também não gostei dessa teoria. Se houver uma sentença, por justiça, não me darei bem. “Desencarnarei, como dizem os espíritas? Se assim for, no Além terei comigo somente os atos que fiz, os bons e os maus.”

Tinha dinheiro que sustentava o meu luxo. A família e os amigos, ali ao meu lado, esperavam minha morte. Somente restavam-me as obras, essas iriam comigo. Abri os olhos, os dois sorriram para mim, e meu filho disse:

- Papai, o senhor ficará bem! Mas estou preocupado. Será que não é prudente tirarmos o dinheiro de suas contas bancárias?

- Sim – respondi com dificuldade. – Faça, filho, o que for melhor. Mas não deixe sua mãe sem nada.

- Claro que não, papai. Mamãe tem muitos imóveis em seu nome e os senhores são casados com separação de bens.

Ele saiu e meu genro ficou ao meu lado. Comecei a delirar. Via vultos, ouvia algumas risadas, e fui piorando.

- Ele morreu! – ouvi do médico.

Choros e risadas. Minha esposa e filha estavam ao meu lado chorando.

- Meu pai morreu! Que tristeza!

- Fiquei viúva! Que será de mim sem ele? Como cuidar dos negócios?

“Morri! Meu Deus! E agora?”

“Ficará aí para ver e ouvir outros hipócritas como você” – falou um vulto, gargalhando.

Que sensação estranha! Senti a equipe médica desligar os aparelhos e tirar as sondas. Meus familiares se afastaram, fui levado para outro local. Limparam-me, colocaram-me outra roupa e me maquiaram. Depois me acomodaram numa urna luxuosa, com muitas flores. Sentia, via, pensava, escutava, mas não me mexia ou falava. E a todo instante me indagava cada vez mais aterrorizado: “E agora?”.

E os acontecimentos vieram. Fui levado ao velório. Que horror! Os familiares chorosos, vestidos de luto, discretos, comportavam-se como a sociedade exigia. Amigos e mais flores foram chegando. Escutei muitos comentários. Poucos faziam orações. Agiam como eu quando ia a velórios. Várias conversas, pessoas que havia tempos não se viam, falavam de tudo: negócios, esportes, mulheres, fofocas e muito sobre mim. Infelizmente, não mentiam. Minha esposa comportava-se com dignidade. Parecia que adivinhava o que alguns diziam: “Fora traída”. Tive muitas amantes. Os filhos não sentiam muito, sempre fora um pai distante. Dinheiro e política sempre vieram em primeiro lugar. Foi um horror! Via e ouvia tudo.

Apelei mentalmente e pedi: “Deus! Misericordioso Pai, ajude-me!”.

“Quantos lhe pediram por Deus! Você os atendeu? Ficará aqui e verá tudo!”

Notei então, que três vultos estranhos estavam do lado de trás do meu caixão, observando-me, e fora um deles quem falara. Ouvi desesperado que estava na hora do enterro. “E agora?” – perguntei de novo com muita aflição. Fecharam a tampa. Estranho, vi-me dentro e fora da urna funerária. Discursos. Quanta hipocrisia e mentiras! Colocaram o caixão no túmulo luxuoso com muitas coroas deflores. Todos se afastaram. Um dos vultos me disse:

- Agora terá a resposta para o que tanto indaga. Verá o que é de fato a morte para você que é ladrão e corrupto! Ficará aí dias junto do corpo de carne que tanto cultuou. Aproveite para pensar no que fez de errado!”

O escuro, o silêncio e o nada. Não sei explicar como, pois não os via ou ouvia, mas sabia que aqueles três vultos continuavam por perto, vigiando-me. Apavorei-me com o fato de estar ali preso. Achei que iria enlouquecer. Somente tinha a certeza de que de fato morrera. Mas que continuava vivo! Foi apavorante. Estava sozinho. A família, quando terminou a cerimônia do sepultamento, foi embora. Estavam cansados e pelas suas feições, estavam ansiosos para que tudo terminasse. Amigos… acho que poderia tachar de amigos somente uns três, os quais não podiam fazer mais nada por mim. O resto eram conhecidos, companheiros e até inimigos disfarçados.

Dinheiro, – lutei tanto para tê-lo, e o que ele me deu? Uma urna de luxo, flores e um túmulo de mármore. E naquele momento a riqueza material não me valia para nada.

Não vou intensificar o horror que passei. Vermes me comendo, dores, frio, sede, fome e muito medo. Estava enlouquecendo. Padeci muito!

- Vem! Escutei uma voz e alguém me puxou. Fora do caixão, sentei em cima do túmulo. Consegui ver os vultos, eram três homens e um deles falou:

- Você merecia ficar aí até seu corpo carnal virar pó. Mas o chefe quer julgá-lo. Vamos!

Pegaram-me pelos braços, saíram comigo do cemitério. Estava confuso, senti um certo alívio pelo ar que batia no meu rosto.
Chegamos a um local estranho e me deixaram num salão. Senti muito medo. Eu, acostumado a mandar, receber agrado e elogios, estava sendo humilhado e tratado como um ser desprezível.

Vi então uma cena aterrorizante. Era um julgamento conjunto de pessoas como eu, mortas-vivas. Para julgar, estavam ali um homem e uma mulher. Outro homem falava sobre os julgados e o que eles haviam feito. Chegou a minha vez.

- Você foi político! A lista de seus erros e pecados é grande! Gostava de orgias! Mulheres lindas e noites de farras! Disse muitas mentiras! Enganou o povo já tão sofrido. Recebeu dinheiro para fazer favores etc. De fato, a lista era grande e tudo verdade. Fui condenado.

- Será escravo! Chega de ser servido! Vai aprender a trabalhar! Colocaram um aro de ferro em meu pescoço e fiquei preso a uma corrente. Um homem me puxou. Começou para mim um longo período de muito sofrimento e humilhação. Gargalhando, um grupo de homens de aspecto maldoso, aproximou-se, despiu-me, deixando-me somente de calça, bateram-me muito, cuspiram em mim e xingaram-me. Sabia que havia morrido. Ou melhor, que havia desencarnado. Meu corpo físico estava lá no cemitério virando pó e meu espírito vivo. Ali sofri horrores. Foram muitos anos de padecimento. Antônio Carlos me pediu para não narrar tudo o que passei senão o relato ficaria extenso, pois não teve um dia no umbral que não sofri, sempre fui humilhado e maltratado. Eles riam do meu padecimento. – Por que reclama? – diziam meus carrascos. – Você se importou com as pessoas que sofriam? O dinheiro que roubou, que pegou indevidamente não foi causa de sofrimentos a outros?

Certo dia, comecei a achar que agira errado. Que vivera encarnado enganando e enganado. Meu choro passou a ser diferente e passei a ajudar os companheiros de infortúnio. Recordei-me de alguns atos bons que fizera, as esmolas que dera, favores que prestara e mesmo os que foram realizados por interesse. Nesses momentos sentia um pouquinho de alívio. Lembrei-me de Deus de modo diferente, como um Pai, o qual antes desprezara e que agora sentia falta. O remorso me fez ver que era merecido meu sofrimento. Abusara dos prazeres, não seguira nenhuma religião e sentia falta de uma crença. Sabia que muitos outros políticos sofriam muito mais do que eu. Os que foram muito desonestos e corruptos padeciam ali no umbral, de forma pior do que se fosse no inferno, se esse existisse. Muitos ficavam presos na caverna dos horrores, num buraco escuro e fétido sendo torturados e humilhados.

Um dia, um moço aproximou-se de mim, abriu o aro do meu pescoço com facilidade e me disse: – Vou tirá-lo daqui, siga-me quieto! Saímos daquela cidade, paramos em frente de um veículo, entramos nele e fui levado a um hospital. Lá, fui tratado com dignidade, bondade e me recuperei. Muitos desencarnados ao passarem pelo que passei, enlouquecem, tornam-se débeis, porém eu tive consciência e muito sofri. Padeço ainda, não consigo esquecer o que fiz de errado, sinto remorso, e esse sentimento me cobra, mas também me faz ter vontade de acertar. Mas o que mais sinto é ver meus familiares seguirem o mau exemplo que dei. Com certeza irão passar e sofrer o que sofri. E não posso fazer nada. Poderia até tentar, mas eles não acreditariam. Para minha família morri e acabei. Penso que seria bem mais fácil morrer e acabar. Mas não é assim. Foi longo o tratamento com aprendizado que recebi.

Sei de pessoas honradas e idealistas que foram e são políticas. E àqueles a quem muito foi dado e souberam usar, dignos serão de receber mais. E espíritos que passam por essa prova e trabalham se dedicando com amor à arte de governar são vencedores, eu os admiro. Sei que é difícil ter dinheiro e poder. Mas se muitos aprenderam a usar sem abusar, outros podem seguir seus bons exemplos.

Para mim, foi apavorante defrontar com a desencarnação. Não com o ato em si, mas com as consequências de meus erros. Aprendi com a dor. E tenho um propósito de colocar em prática esses ensinamentos. Quero reencarnar para ter a bênção do esquecimento e de um recomeço. Desejo esquecer o que fiz de errado e tentar fazer o certo. Tenho orado muito para ser honesto, anseio por ter essa virtude e provar a mim mesmo que posso ser uma pessoa de bem.

Explicação de Antônio Carlos

É de fato na hora da desencarnação que temos as companhias do plano espiritual às quais nos ligamos. Esse convidado não quis se identificar. Denominações são passageiras. Nos seus últimos dias encarnado, escutava os desencarnados que esperavam a morte do seu corpo físico. De fato, eles fizeram guarda no cemitério para que ele não saísse do túmulo e eles o perdessem. O julgamento que ele narrou, infelizmente é muito realizado em diversos lugares do umbral. André Luiz, através da mediunidade de Chico Xavier, no seu livro “Libertação”, relata-nos um desses julgamentos com muitos detalhes.

Pedi que ele não descrevesse seus padecimentos, porque esse amigo está ainda em tratamento e fica triste e amargurado quando recorda o que passou. Realmente, foi muito difícil. Essas sentenças acontecem porque há no umbral os que se denominam justiceiros e os que se sentem culpados. São julgados os que têm dentro de si, em suas consciências, atos errados. Isso não acontece com pessoas que não cometeram ações más.

Muitos perguntam: “Por que os espíritos bons não socorrem todos os que sofrem?”. Muitos dos que desprezam as lições que a vida oferece para aprender, recebem a dor, que tenta ensiná-los, impulsioná-los a caminhar. Não basta pedir somente para ficar livre do sofrimento. Agir assim é como não querer a ressaca, o sofrimento ocasionado pela reação, e sim querer continuar no vício, na prática dos erros.

Para ser socorrido tem que se fazer receptivo, pelo arrependimento sincero, com vontade de melhorar e se puder voltar no tempo, agir de outra forma. Esse convidado foi socorrido quando se modificou, arrependeu-se, reconhecendo seus erros e passou a ajudar outros desencarnados que sofriam mais do que ele.

Socorristas vão a todas as partes do umbral, auxiliando. Os que se sentem enlouquecidos e débeis são socorridos quando esses abnegados servos do bem sentem que eles querem se modificar ou que a dor foi persistente e que a lição pode ter sido assimilada.

Os imprudentes são muitos. Os que querem ser servidos também. Resta para serem socorristas os prudentes e trabalhadores. A messe é grande, os servos são poucos, disse-nos Jesus, e infelizmente nada ainda se modificou. Poderíamos mudar se todos quiséssemos servir…

Do livro “Morri. E agora?”, de Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho, pelo espírito Antônio Carlos.

Michael Nyman – The heart asks pleasure first

Comente aqui você também
Jun92012

Amor só funciona em liberdade…

Eu, Cirilo Veloso Moraes, ganho muitos livros de meus amigos e amigas. Talvez por saberem do meu prazer infinito pela leitura. Talvez por quererem uma opinião minha a respeito de um determinado assunto. Talvez por… Sei lá… Mas o fato é que vez por outra aparece um amigo ou amiga com um livro e diz “Acho que irás gostar…” ou “Você precisa ler este livro!”. Bem, estava lendo um livro que ganhei da amiga Diana Torres dia desses. “Onze Minutos“, de Paulo Coelho, e me deparei com um trecho que me chamou atenção. Um trecho do Diário de Maria que fala sobre a ideia do amor verdadeiro, consubstanciado na liberdade, no movimento, e não na prisão que alguns insistem em querer colocá-lo. Compactuo desta ideia e por isso compartilho agora aqui com vocês:

Era uma vez um pássaro. Adornado com um par de asas perfeitas e plumas reluzentes, coloridas e maravilhosas. Enfim, um animal feito para voar livre e solto no céu, e alegrar quem o observasse.

Um dia, uma mulher viu o pássaro e apaixonou-se por ele. Ficou a olhar o seu voo com a boca aberta de espanto, o coração batendo mais rapidamente, os olhos brilhando de emoção. Convidou-o para voar com ela, e os dois viajaram pelo céu em completa harmonia. Ela admirava, venerava, celebrava o pássaro.

Mas então pensou: talvez ele queira conhecer algumas montanhas distantes! E a mulher sentiu medo. Medo de nunca mais sentir aquilo com outro pássaro. E sentiu inveja, inveja da capacidade de voar do pássaro.

E sentiu-se sozinha.

E pensou: “Vou montar uma armadilha. Da próxima vez que o pássaro surgir, ele não partirá mais”.

O pássaro que também estava apaixonado, voltou no dia seguinte, caiu na armadilha, e foi preso na gaiola.

Todos os dias ela olhava o pássaro. Ali estava o objecto da sua paixão, e ela mostrava-o às suas amigas, que comentavam: “Mas tu és uma pessoa que tem tudo”. Entretanto, uma estranha transformação começou a processar-se: como tinha o pássaro, e já não precisava de o conquistar, foi perdendo o interesse. O pássaro, sem poder voar e exprimir o sentido da sua vida, foi definhando, perdendo o brilho, ficou feio – e a mulher já não lhe prestava atenção, apenas prestava atenção à maneira como o alimentava e como cuidava da sua gaiola.

Um belo dia, o pássaro morreu. Ela ficou profundamente triste, e passava a vida a pensar nele. Mas não se lembrava da gaiola, recordava apenas o dia em que o vira pela primeira vez, voando contente entre as nuvens.

Se ela se observasse a si mesma, descobriria que aquilo que a emocionava tanto no pássaro era a sua liberdade, a energia das asas em movimento, não o seu corpo físico.

Sem o pássaro, a sua vida também perdeu sentido, e a morte veio bater à sua porta. “Por que vieste?” perguntou à morte.

“Para que possas voar de novo com ele nos céus” respondeu a morte. “Se o tivesse deixado partir e voltar sempre, você o amaria e o admiraria ainda mais; porém agora você precisa de mim para poder encontrá-lo de novo.

Li há muito tempo uma frase que dizia assim: “Amo a liberdade. Por isso, as pessoas que amo deixo livres; se voltarem é porque as conquistei; se não voltarem é porque nunca as tive.”

De fato, segundo minha experiência e do que aprendi na vida, o amor só funciona em liberdade.

Lembro de uma história que aconteceu com dois amigos próximos (quem me conhece talvez já tenha me ouvido contá-la algumas vezes).

Eles não se conheciam… Ela era uma menina linda. Era alegre, sorridente, reluzia um brilho inigualável quando andava, quando dançava, quando sorria extrovertida pelos quatro cantos onde passava… Ele era um rapaz igualmente lindo, tinha “presença”, chamava atenção dos olhares femininos. Ambos amigos meus. Num belo dia nos encontramos e lá estava ela dançando, falando com todo mundo, marcando presença e deixando o ambiente mais belo do que de costume. Ele a viu me abraçar e me dar um beijo bem grande, como só os intensos e verdadeiros sabem dar, e me perguntou: “Amiga sua?!”. Respondi que sim. Ele ficou encantando, não o culpo. Afinal, era dela que estávamos falando. “Me apresenta!” – insistiu. Adverti: “Você é ciumento, possessivo; é “presença”, mas inseguro. Não vai aceitar o jeito livre dela de ser…” “Que nada! Eu quero conhecê-la! Me apresenta!”. “Está bem….”. Apresentei os dois. Ela também se agradou dele. Afinal, o aparente geralmente nos prega cada peça… O fato é que começaram a namorar, super apaixonados. Adverti aos dois: “Vocês não combinam. São muito diferentes. Você livre; ele controlador. Pensem bem…” Ignoraram-me e seguiram… Ele, no começo, fazia vista grossa para o jeito expansivo e livre dela. Casaram. Tiveram dois filhos. Depois de um tempo, começou a querer limitá-la, como eu já previra desde o primeiro momento. Ela, por gostar dele, foi mudando… E murchando… E perdendo o seu brilho natural. Não mais tinha espontaneidade de falar com todos, não dançava mais, não brilhava. Deixou de ser o pássaro lindo que era. Tinha asas, mas esqueceu-se de como era maravilhoso voar… Já não cantava mais. Definhou.

E até hoje esse exemplo prático que aconteceu bem debaixo dos meus olhos não me sai da cabeça e me deixa com a certeza de não querer algo nem de longe parecido para minha vida. Quero apenas o que me for semelhante. Apenas alguém que me aceite como sou, que me estimule, que incentive o meu melhor, o que eu sou e o que me faz feliz. A ideia do “você faz por mim, eu faço por você e assim seremos felizes”. Se me amar, deixe-me livre para ser quem sou. Assim, do meu jeito. Louco. Livre. Porque como disse Lispector, liberdade é pouco. O que eu quero ainda não tem nome.

Camille Saint-Saëns – The Carnival of the Animals, The Swan

Comente aqui você também